Empate no campo da história
O Estado de S.Paulo, 24/04/2005, Cultura, p.4
Elias Thomé Saliba
Especial para o Estado
Em 1972, como parte das comemorações, quase todas oficiais, do sesquicentenário da independência nacional, aconteceu um jogo de futebol entre Brasil e Portugal. Num País onde o futebol sempre funcionou como metáfora silenciosa que aciona o gatilho do inconsciente coletivo, muitos se lembram desse amistoso e do seu sugestivo resultado – um empate. Entre a enxurrada de publicações que relembravam o célebre grito do Ipiranga em 1822, poucos se lembram, contudo, de um ensaio que também estimulava os historiadores a mudarem o foco de suas análises, sugerindo – em vez da imagem da colônia em luta com a metrópole – uma espécie de empate histórico entre Brasil e Portugal. É este ensaio, acrescido de dois outros escritos de Maria Odila da Silva Dias – clássicos de referência obrigatória na historiografia brasileira – que são finalmente reeditados em A Interiorização da Metrópole e outros Estudos.
Mas não se iludam os leitores com o termo ensaio – apenas um rótulo cômodo para alguns dos melhores estudos da historiografia social brasileira, extremamente bem documentados, compondo um denso painel histórico das épocas anteriores e posteriores à ruptura dos vínculos políticos que prendiam o Brasil a Portugal. Os brasileiros pertencentes à geração que liderou a Independência formaram-se nas universidades européias, mas acabaram absorvendo a cultura iluminista de uma forma muito peculiar, com ênfase nas ciências naturais e nos estudos práticos. Nossos gloriosos liberais eram bem menos fanáticos com as idéias da revolução francesa, e muito mais interessados em aplicar a ciência como ferramenta para aumentar ou incentivar a produção de anil, cochonilha ou cânhamo. “Aspectos da Ilustração no Brasil” narra a história desta geração através de exemplos muito precisos. Alexandre Rodrigues Ferreira era zoólogo e mineralogista; Borges de Barros enfatizou a aplicação das ciências naturais para a produção agrícola, sugerindo mudanças nos transportes com o uso das vias fluviais; mas o paradigma do ilustrado brasileiro foi o próprio José Bonifácio que, antes de ficar conhecido como “patriarca da Independência”, escreveu sobre técnicas de pesca da baleia, mineração ou incremento da extração de carvão de pedra – chegando a confessar-se mais atraído em lecionar mineralogia do que em envolver-se na política. Nada a estranhar numa geração educada segundo o formato das idéias liberais, mas que, nestas plagas, continuavam sendo fazendeiros que possuíam escravos ou retiravam sua renda do rendoso comércio do tráfico.
http://txt.estado.com.br/editorias/2005/04/24/cad014.html
veja também:
« Uma interpretação crítica da História
Almanack Brasiliense. IEB/USP »



Notícias