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‘Situações’: reflexões para explicar o mundo em que vivemos

Livros da coleção:


Imaginada como uma forma de intervenção cultural junto ao leitor, a coleção Situações, lançada pela Alameda Casa Editorial, oferece breves ensaios sobre temas, personagens e questões contemporâneas. A coleção surge com três livros: “De volta aos anos 60”, do francês Pierre Bergounioux, “Sobre a Felicidade”, da eslovaca Renata Salecl, e “Ciência do Sonho”, do jornalista brasileiro Marcelo Rezende, criador e organizador da Situações. Cada um dos três livros custa R$ 19,90. Dividida em dois módulos, Situações e Situações S.I. – com textos que comentam a atual produção de som e imagem e seus criadores —, a série propõe uma ágil e original reflexão sobre os fatos do mundo. Nesta entrevista, Marcelo Rezende, 37, que foi correspondente da Gazeta Mercantil em Paris (1998-2002) e diretor de redação da Cult explica a proposta da coleção.

Como surgiu a idéia de criar essa coleção?
Marcelo Rezende - A idéia surgiu a partir da percepção de que o leitor, hoje, cotidianamente, vê-se diante de situações pessoais (sentimentais e afetivas), econômicas, sociais e culturais que pedem uma resposta à pergunta: o que está acontecendo? Acontecendo em sua vida pessoal ou em um quadro mais universal. Assim, após longas conversas com os editores da Alameda, imaginamos um selo dentro da editora que pudesse propor respostas para esse público. A Situações é um selo, uma coleção criada a fim de oferecer ao leitor essa experiência: entender melhor o mundo de hoje e suas relações.

São todos textos curtos e, de certa forma, didáticos. Por quê?
Marcelo Rezende – Os textos da coleção situam-se entre o jornalismo e a produção rigorosamente acadêmica. Isto é, cria um espaço “do meio”, mais sofisticado do que o regular texto da imprensa e mais acessível do que os trabalhos realizados no âmbito universitário, a fim de que pessoas interessadas, mas não especialistas, possam ter uma curta, discreta e ainda assim sofisticada aula sobre o tema proposto por cada livro. Os volumes terão entre 50 e 70 paginas, e assim, após duas horas de leitura, o leitor pode entender melhor as mais diferentes questões deste início de século 21.

O que pauta o recorte dos temas?
Marcelo Rezende - Basicamente, o espírito da coleção é promover o debate em torno de questões contemporâneas. É muito diferente das coleções existentes no mercado, que propõem uma explicação escolar sobre diferentes temas (como a clássica coleção Primeiros Passos). A Situações pode fazer o leitor entender por que ele se sente tão interessado nos filmes de um cineasta como Michel Gondry, diretor de “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças”, porque ele se sente abrigado e seguro em um shopping center ou por que sempre compra muito mais coisas do que realmente precisa.

“Situações” e “Situações SI”: qual é a diferença?
Marcelo Rezende - No Situações não há restrições. Todos os temas, desde que sigam a idéia de comentar questões como as descritas acima (contemporâneas), podem caber nela. Política, culinária, Internet, etc. No Situações S.I. a intenção é propor comentários sobre a atual produção ligada ao som e a imagem, especificamente, já que o mercado, hoje, edita apenas obras sobre figuras ou obras “clássicas” nesse campo. Nos estamos interessados no novo, no que está seduzindo os jovens de hoje.

Que outros títulos estão previstos? Todos os livros serão traduções ou você contará com autores nacionais também?
Marcelo Rezende - Há autores nacionais e traduções. Os três primeiros títulos dão o tom de todo projeto. Temos alguns volumes programados: um sobre o cinema de M. Night Shyamalan, diretor de “A Vila”, outro sobre o fascínio do público pelas minisséries norte-americanas, um sobre o significado do “ato terrorista hoje”, e ainda um sobre as relações entre as drogas e os meios de comunicação, como os satélites e a Internet.

Como são os três títulos iniciais?
Marcelo Rezende – Falarei de cada um deles. “Sobre a Felicidade - Ansiedade e consumo na era do hipercapitalismo” é um texto inédito em livro. Foi enviado pela autora especialmente para a coleção. A autora é Renata Salecl, uma jovem psicanalista eslovena, professora em Cambridge e London School of Economics, na Inglaterra, editada pela primeira vez no Brasil. Seu ensaio é uma verdadeira sessão de análise. Mas o que ela analisa é o modo como estamos vivendo hoje, no século 21, e de que maneira a ansiedade que todos parecem sentir hoje no dia a dia está ligada ao fato de que, agora, somos obrigados a escolher tudo. Há 700 marcas para cada produto, planos de saúde, companhias telefônicas. Ela explica que conseqüências pode haver em estar vivendo em um período no qual até mesmo os mais sérios tratamentos médicos passam a ser responsabilidade do paciente (que tem que decidir entre um ou outro tratamento), e não mais dos médicos. Isso nos torna mais infelizes? Consumimos em busca de algo que não teremos jamais? Com a resposta, Renata Salecl.

“De Volta aos Anos 60 - Uma viagem pelo fim do ideal revolucionário” é de Pierre Bergounioux, um precioso escritor francês que aparece recitando um de seus textos no último filme de Jean-Luc Godard, “Nossa Música”. Ele é também inédito no Brasil. A melhor descrição sobre o texto pode ser dado pelo próprio autor: “Os 30 últimos anos não levam a nada. Pior do que isso. Eles constituem uma regressão sem precedentes nos domínios da inovação intelectual, da luta política, da moral pública e das virtudes privadas (…). As relações financeiras conquistaram todo o planeta. Os últimos instantes reais, vivos, vibrantes que conhecemos remontam aos anos 60. E é aqui eu quero chegar”. Atual, não?

“Ciência do Sonho - A imaginação sem fim de Michel Gondry” é o primeiro volume do Situações S.I. Trata-se de um ensaio sobre o diretor francês Michel Gondry, o artista responsável pela renovação do videoclipe e por ter tornado o gênero uma forma de expressão artística. Ele é o diretor de “Brilho Eterno de uma mente sem lembranças”. Como digo num trecho do ensaio, Gondry “pertence a essa mesma geração do esquecimento, e isso lhe permite negar toda e qualquer forma de hierarquia”. Para ele, não existe mais a separação entre cinematográfico e televisivo, tecnológico e artesanal. Há apenas o mundo das imagens e dos sons em movimento. Sua perspectiva diante desse cenário no qual se encontra é irônica e festiva, mas isso não o absolve do pecado e da culpa. “Algo falta, e o público de seus trabalhos na música ou no cinema convivem com essa mesma sensação de ausência, como se o futuro fosse apenas uma repetição incessante do presente e o círculo vicioso pudesse ser quebrado apenas se algo pudesse ser, de alguma maneira, recuperado. São mentes sem lembrança.”


veja também:
« Folha de S.Paulo, p. 10 - caderno Mais!, 15/1/2006
Folha mais! »

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