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São Paulo, domingo, 29 de janeiro de 2006
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Persona non grata
“Entre a Casa e o Armazém” analisa a fragmentação das relações pessoais na São Paulo do século 19
MILTON OHATA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Entre a Casa e o Armazém” descreve as estratégias de sobrevivência de setores sociais médios numa São Paulo que em pouco tempo deixava de ser burgo pacato de estudantes para se transformar em grande metrópole.
Entre 1850 e 1900, sob a dinâmica da economia cafeeira, a cidade transitou do Império à República e, o mais importante, da escravidão para formas incipientes de assalariamento. Mudanças nas relações sociais entre um perÃodo e o outro foram captadas por meio de um levantamento minucioso em cerca de 400 inventários de pessoas que, mesmo não sendo escravas, tampouco gozavam dos privilégios materiais dos grandes proprietários.
O tema do livro é o esgarça-mento de um precário sistema de crédito baseado em relações pessoais
O assunto do livro é o esgarçamento de um precário sistema de crédito baseado em relações pessoais, após o crescimento vertiginoso por que passou a cidade durante os últimos 20 anos do século 19.
Para descrever essas mudanças, a autora se apoiou nos recursos extraordinários que a informática possibilita aos pesquisadores de hoje, por meio do cruzamento de informações em bancos de dados mas também da iconografia paulistana e de antigos gêneros historiográficos, como as memórias da primeira metade do século 20, que aliviam a leitura da aridez dos levantamentos numéricos.
No plano propriamente historiográfico, o livro faz coro com uma bibliografia brasileira e européia que, radicada em sólida pesquisa em arquivos, tem procurado questionar as generalizações muito enfáticas dos grandes esquemas da história, principalmente os de extração marxista. É o caso, entre nós, de muitos trabalhos que recentemente procuram relativizar o conceito de “antigo sistema colonial” ou, na Europa, notadamente os do grupo de historiadores italianos que se formou em torno dos “Quaderni Storici” a favor de uma “microistória”, tendo em Carlo Ginzburg seu representante mais conhecido.
Correndo o risco de simplificar, o propósito comum de todos esses trabalhos estaria em medir a “margem de manobra” -o que pressupõe uma postura ativa de invenção social por parte dos agentes históricos- diante das macroestruturas impessoais.
O livro tem cinco blocos com recortes descritivos dos modos de vida de pequenos comerciantes, rentistas, funcionários públicos, profissionais liberais e remediados. De todos ficamos sabendo o nome, endereço, relações de parentesco e a esfera material reduzida com que tentavam ganhar o pão de cada dia.
Sob a variedade de cada capÃtulo -em que ora predomina a história social, ora a do urbanismo-, corre o andamento binário da exposição, que se concentra nos perÃodos: de 1874-82, em que as relações pessoais são a garantia das relações de crédito; e de 1894-1901, em que o crescimento da cidade pulveriza a rede que existia anteriormente.
Entre um e outro, há uma espécie de corte sem meios-tons, o que talvez revele o significado da modernização para a autora, que põe sinal positivo nas antigas relações destruÃdas abruptamente.
Nesse sentido, o livro se aproxima dos trabalhos que têm procurado salientar o aspecto autoritário das reformas sanitárias e urbanÃsticas da Primeira República.
A prosa da autora, simples e comedida, reflete muito dos personagens cujas vidas descreve. Em alguns momentos, refere com naturalidade as conversas com os próprios avós -filhos de antigos donos de armazéns, os mesmos que encontramos ao longo do livro. O que faz lembrar as palavras de Gilberto Freyre em “Casa Grande & Senzala”, sobre “um passado que se estuda tocando em nervos; um passado que emenda com a vida de cada um; uma aventura da sensibilidade, não apenas um esforço de pesquisa pelos arquivos”.
Mas aqui estamos longe do saudosismo patriarcal do escritor pernambucano. A simpatia vai para os “figurantes mudos”, num quadro ideológico oposto. A expressão é de Sérgio Buarque de Holanda e foi inspiração de um programa que consistiu em transpor o ponto de vista (e não somente os temas) do modernismo de 1922 para a historiografia, durante a rotinização das inovações culturais após as mudanças polÃticas e econômicas promovidas pela Revolução de 1930.
Creio que o próprio Sérgio Buarque reviu esse programa depois do golpe de 1964, reorientando sua obra no livro sobre o fim do Império brasileiro, publicado em 1972.
Ainda assim, o quadro de resistência à ditadura e posterior redemocratização pareceu caucionar o desdobramento do programa em obras como “Cotidiano e Poder” (1984), de Maria Odila da Silva Dias, a que este trabalho explicitamente se filia.
Durante os anos 1970-90, boa parte das ciências sociais brasileiras foi movida pelo desejo de estudar e, assim fazendo, promover politicamente “os de baixo”. Em 1994, Francisco de Oliveira chegou a falar em “Revolução dos Zés”, cujos atores iriam da classe para a cidadania -invertendo o percurso clássico feito na Europa.
O ponto de fuga seria a criação coletiva de um espaço público, pelo qual a burguesia brasileira quase nunca se empenhou (novamente, ao contrário das européias).
A construção desse paÃs meio real, meio imaginado, encontra-se hoje bastante fragilizada pelos processos destrutivos -de paÃses, classes, identidades- do capitalismo contemporâneo, agravados na atual conjuntura doméstica, onde um governo que deveria ser a expressão da “Revolução dos Zés” assumiu explicitamente as polÃticas de inclusão social passiva.
Pensando bem, o sismógrafo social já acusara desde o começo dos anos 1980, com a crise da dÃvida externa, o bloqueio da mobilidade ascendente que vinha até então caracterizando a história republicana brasileira. Foram anos de arrocho salarial, inflação galopante, pacotes econômicos de todo tipo e encurtamento de horizontes na classe média -tudo isso parece impregnar o livro e mostra que a história entra pela historiografia através de caminhos de que a própria historiografia não suspeita.
Milton Ohata é doutor em história pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.
Entre a Casa e o Armazém
416 págs., R$ 58
de Maria Luiza Ferreira de Oliveira. Ed. Alameda (r. Ministro Ferreira Alves, 108, CEP 05009-060, SP, tel. 0/xx/11/ 3862-0850).
veja também:
« ‘Situações’: reflexões para explicar o mundo em que vivemos
Pravda Online, 2/2/2006 »



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