O Estado de S. Paulo – Caderno de Cultura – 12 de Março de 2006 – página D8
Quando São Paulo virou burguesa
Entre a Casa e o Armazém detalha as transformações da cidade após o fim da escravidão, passando de colonial a republicana
ESTUDO COMPARA OS ‘MODOS DE VIVER’ DOS CIDADÃOS DE DIFERENTES SETORES
Izabel Marson
ESPECIAL PARA O ESTADO
Entre a Casa e o Armazém ( Alameda , 415 págs., R$ 58), de Maria Luiza Ferreira de Oliveira, oferece uma história abrangente dos “setores médios” da sociedade paulistana nas últimas décadas do Império e anos iniciais da República, destacando seu variado perfil e difícil sobrevivência, em geral singularizados pela posse de modesto patrimônio e pela instabilidade social decorrente das transformações ocasionadas pelo fim da escravidão.
Mas também extrapola, em muito, esse universo ao restabelecer as relações desses segmentos com outros grupos (escravos, assalariados, funcionários públicos, políticos e grandes investidores), e demonstrar seu desempenho na expansão urbana que empurrou a cidade para além de suas fronteiras originais (a várzea do Carmo e do Anhangabaú) e assinalou o trânsito da São Paulo colonial à republicana.
A linguagem simples e objetiva do livro – originalmente uma tese de doutorado defendida no Departamento de História da USP – introduz uma argumentação rica, densa e rigorosamente fundamentada em procedimentos acadêmicos: no recorte de experiências originais de homens e mulheres nem sempre lembrados por importantes intérpretes da sociedade brasileira. Na exaustiva exploração de fontes de variada modalidade – inventários post-mortem do arquivo do Poder Judiciário de São Paulo, jornais, memórias, pinturas, fotografias e ampla bibliografia, inclusive textos literários –, suporte de gráficos ilustrativos e da recomposição das teias de relacionamentos, dos patrimônios e das práticas que sustentaram, reproduziram e transformaram a vivência dessas camadas intermediárias juntamente com a história da cidade. Na opção pelo diálogo entre diversas referências teóricas e interpretativas que relacionou marcos e assertivas de clássicos da historiografia brasileira – a exemplo de Sérgio Buarque de Holanda – com dados recentemente divulgados por estudiosos da micro-história e da história social, econômica, política e cultural das cidades na Europa e no Brasil.
Desses procedimentos e materiais resultou uma narrativa (organizada em cinco capítulos bem articulados) minuciosa e comparativa dos “modos de viver” dos cidadãos colocados entre os “pobres” (os que só possuíam sua força de trabalho) e as elites mercantis e proprietárias de fazendas de café, em dois momentos estrategicamente escolhidos: os anos precedentes (1874-1885) e sucessivos (1894-1901) à abolição do cativeiro, evento-marco da passagem da São Paulo “caipira” para cidade “aburguesada”. Ela acompanha o percurso dos cinco grupos de riqueza que organizam essas camadas intermediárias: 1) “os mais pobres” (pequenos negociantes, funcionários públicos, prestadores de serviços e artesãos “com uma casinha, um negócio, um dinheirinho” e, raramente, um escravo de pequeno valor); 2)“os apenas remediados” (pequenos comerciantes e artesãos, “com casa de porta e janela” e algum escravo doméstico); 3)”os setores médios paulistanos” (negociantes, funcionários públicos e guarda-livros que viviam de rendas em sobrados e possuíam cativos para o serviço da casa e de ganho); 4)os que se distinguem por seus proventos e profissões liberais (advogados, médicos, artesãos qualificados que investem em casinhas de aluguel e cativos valorizados); e os 5) “comerciantes em sociedade” (que habitam sobrados modernos, casa térreas ou chácaras e dispõem de vários escravos de alto valor). E acentua as mudanças e permanências, decorrentes da supressão da escravidão, nas formas de propriedade acessíveis a esses segmentos, sobretudo nas relações de crédito (dívidas ativas e passivas), nos “bens de raiz” (imóveis de aluguel), no “viver de negócios” de armazéns, contraponto estendido à análise de imagens da urbe registradas em diferentes fontes iconográficas – telas de Debret, Calixto, Ferrigno e especialmente fotografias de Militão Augusto Azevedo.
O livro traz, portanto, significativa contribuição para a história de São Paulo e do Brasil da segunda metade do 19, contribuição singularizada pela maneira criativa e sensível da autora conceber e descrever o tempo, os espaços e as pessoas. Nesse sentido, anote-se seu empenho em demonstrar cada circunstância ou cena analisada – desde a composição dos pertences inventariados até a configuração dos espaços urbanos – como uma “convivência de temporalidades”, neles reconhecendo vestígios do passado, sinais do presente e simbologias do futuro. Anote-se ainda o cuidado com que, ao organizar as informações dos inventários para compor seus personagens, também imaginou expectativas, valores, sociabilidades, trajetórias e desencantos de muitos homens e mulheres de variado lugar social. Não por acaso, lembranças de infância e o livro Resumo de Ana, de Modesto Carone (mencionado no início e fim do texto), aparecem como referências importantes na inspiração e montagem do estudo sobre a vida e a morte de d. Carolina Rangel, do dr. Henrique Thompson, de d. Maria das Dores Jesus Viana, e de muitos outros indivíduos que instigam a curiosidade, cativam o leitor e o conduzem pelas ruas e habitações da São Paulo que começava a se pensar, configurar e agir como metrópole.
Izabel Marson é professora do Departamento de História da Unicamp
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