Sala de leitura
Zero Hora – Porto Alegre, 19/03/2006 – coluna de Mário Marcos de Souza
(…) O papa João Paulo II foi goleiro. O líder revolucionário Ernesto Che Guevara foi goleiro. O presidente Café Filho, que governou rapidamente o Brasil após o suicídio de Getúlio Vargas, foi goleiro. O escritor Albert Camus foi goleiro, Arthur Conan Doyle, o criador do detetive Sherlock Holmes, foi goleiro. O cantor romântico Julio Iglesias foi goleiro. O ensaísta russo Vladimir Nabokow (1994) não foi goleiro. Mas queria muito ter sido, como revelou:
Eu era louco para ser goleiro. Na Rússia e nos países latinos, esta arte altaneira sempre esteve cercada de um halo de fascínio singular. Distante, solitário, impassível, o grande goleiro é seguido nas ruas pela meninada em transe. Rivaliza com o toureiro e os aviadores como objeto de emocionada veneração. A camisa, o boné, as joelheiras, as luvas saltando dos bolsos das calças o distinguem do resto do time. É a águia solitária, o homem misterioso, o último defensor. Os fotógrafos se ajoelham com reverência para imortalizá-lo em pleno salto espetacular, desviando com a ponta dos dedos um fulminante chute rasteiro, e o estádio ruge de aprovação, enquanto ele permanece estendido onde caiu durante uns instantes, com a meta ainda intacta.
O idealizador de Lolita não se arriscou nas peladas, ele preferiu fazer das palavras a sua forma de atuação nessa utopia. Outro famoso escritor, no entanto, pôde provar do gosto dessa paixão. Na Argélia ainda colonizada pela França, um jovem alto, magro, de aspecto físico frágil, defendia a meta do time da Universidad de Argel no início dos anos 1930, quando o futebol começava a ser um denominador comum para as diversas nações do planeta, com a realização das primeiras copas do mundo. Albert Camus ainda não era o consagrado romancista de A peste e O estrangeiro, mas fazia do seu ofício de goleiro objeto de reflexões existencialistas.
Ele percebeu a lição de vida que a posição proporciona. Camus gostava muito de futebol quando era menino, mas como não tinha muito dinheiro, acabava indo para o gol, onde o sapato gastava menos sola. Toda noite a avó de Camus conferia as solas do guri e fava uma surra nele caso estivessem gastas. Não era um grande goleiro, mas já demonstrava ser um excelente observador e pensador, como mostraria nos seus livros. Do futebol, Camus sempre declarou ter aprendido importantes lições (…)
Editor assistente do Jornal da Tarde, o paulista Paulo Guilherme de Moraes Ramos de Oliveira faz neste livro uma justa e comovente homenagem aos goleiros, jogadores que por mais milagres que façam sempre sofrem restrições, desde Barbosa na final da Copa de 1950. Vale a pena conferir.
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