Goleiros - Heróis e Anti-Heróis da Camisa 1

Chuteira preta, parte 2

O GLOBO, segunda-feira, 10 de Julho de 2006 – artigo de Joaquim Ferreira dos Santos

(…) Eu li a saga de Castilho em “Goleiros — Heróis e anti-heróis da camisa 1”, que saiu junto com os jogos da Copa. Acredite, Roberto Carlos. Foi ainda ontem, Ronaldinho.

Castilho, o goleiro reserva das seleções campeãs de 1958 e 1962, ficou sem o dedo, mas na hora da decisão estava lá debaixo dos quatro paus defendendo seu time, honra e companheiros. Podia ter operado, feito um enxerto, ficaria com a mão perfeita para o resto da vida — mas perderia aquela final. Não topou. Falou com o médico. “Amputa”. “Mete bronca”. Essas coisas claras dos craques antigos. Serrou-se-lhe o mindinho. Dias depois estava em campo.

Acredite, Cafu. Pode parecer história fictícia de um jogador patrocinado pela Golden Cross. Mas que nada.

Castilho, também conhecido como “Leiteria”, num tempo do Rio em que isso era sinônimo de sortudo, no tempo em que havia alguém sortudo no meio de uma cidade dessas, morreu pobre. Os goleiros jogavam sem luvas, no máximo com joelheiras. Colocavam a vida em cada ponte. Pompéia quebrou o maxilar ao se jogar nos pés de um atacante. Priscas eras. Não tomavam Gatorade, mas Caracu batida com casca de ovo, noz moscada, canela e vergonha, muita vergonha nessa cara.

Castilho deve ser mais um revirando, morto de raiva, seu coração futebolístico na tumba humilde do cemitério de Inhaúma. Era um chuteira-preta desses de que se estava falando outro dia aqui nesse papo de barbeiro, um desses jogadores raçudos que não levavam desaforo para casa. Capazes de sair na pernada como fez o Pinheiro contra os húngaros em 1954, de pagar geral como fez o Almir Pernambuquinho na final de Flamengo e Bangu em 1966. Radicais em sua hombridade.

Eles se recusariam a entrar em campo se a torcida, como agora na Alemanha, estivesse cantando “Go west” do Village People. Eram como o Café Globo. Machos até a última gota.
(…)


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