Além do Espartilho – No início do século XX, os jornais satíricos pintaram a odisséia dos paulistas
Revista Carta Capital – 6 de Setembro de 2006 – edição n° 409
Por Rosane Pavam
“A história feita a partir de miudezas proustianas conecta os habitantes de uma cidade a seu princípio. Há quatro anos, em Raízes do Riso, Elias Thomé Saliba estudava a representação humorística brasileira, da belle époque aos primórdios do rádio. Era o início da construção dessa história em pedaços. Agora, em Preso por Trocadilho (A imprensa de narrativa irreverente paulistana, 1900-1911), Paula Ester Janovitch se inspira diretamente na cidade em movimento de Saliba, seu orientador. O livro da antropóloga, nascido acadêmico, recorta os retratos dos fundadores da escrita urbana. E prova que esses artistas eram, sim, divertidos e cínicos, a essência sempre questionada do paulista.
Preso por Trocadilho é um livro delicado, distante dos manifestos. Mais descreve o humor que ganhava as folhas impressas desde o século XIX do que teoriza sobre elas. Sem tomar o partido dos modernistas, mas, também, sem crucificá-los, deita-se sobre as situações sociais que originaram os pequenos jornais satíricos, predecessores da Semana de 22.
(…)
Antes, os jornais, impressos com dificuldade, não saíam para a venda, eram buscados pelo leitor nas próprias oficinas e livrarias, e concentravam o conteúdo em questões locais. Mas a modernização trouxe consigo a besta comunicacional, alimentada por estradas de ferro. A posta restante estava aberta a todos os que decifrassem o novo mundo. Os jornais humorísticos olhavam a cidade como sátira não por capricho, antes por uma necessidade cultural.
A São Paulo deste livro é uma confusão de nacionalidades ainda não fundidas. Nela, o caipira convive atônito com a levada de italianos, que em certo momento o supera numericamente. E há os alemães, à véspera do choque bélico.
Somente os jornais satíricos, de vida breve como a de um brinquedo, descem à diversidade marginal; os outros grandes veículos admiram o balançar das moças espartilhadas do triângulo elegante das ruas XV de Novembro, São Bento e Direita. As aparências são importantes nesse período, porque, diz-nos Paula, é preciso se orientar por elas para reconhecer o ser humano ao lado. Caipiras, alemães, italianos, moças de sombrinha, qual é a sua língua?
(…)
A beleza deste livro está em sugerir que é preciso estabelecer uma poética de grupos ou a história desses grupos estará perdida, à moda da contribuição atual do hip-hop para a periferia urbana. Bananére, Scipione e Fidêncio da Costa (o macarrônico caipira de Cornélio Pires) foram Homeros em sua medida: sem eles, não teria havido a odisséia dos paulistas.”
Leia o artigo completo na edição n° 409 da Revista Carta Capital
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