Álcool e drogas na história do Brasil

Adega: Álcool e História

Diário do Comércio – Sexta-feira, Sábado e Domingo, 15, 16 e 17 de Setembro de 2006

Por Sérgio de Paula Santos

Tem aumentado muito o número de publicações sobre cozinha e bebidas. Dos primeiros, de cozinha, a grande maioria, é de receitas, repetidas ou novas, enquanto os de bebidas, fermentadas ou destiladas, não tem apresentado grandes novidades, mesmo em um ramo em constante evolução.

Como que para ventilar esse setor, apareceu uma obra notável, sobre bebidas alcoólicas e drogas, em seu aspecto histórico, social e antropológico.

O Álcool e drogas na história do Brasil é organizado pelos historiadores Renato Pinto Venâncio e Henrique Carneiro, que reuniram cerca de 15 cientistas sociais dos mais atuantes no País.

De início, Henrique Carneiro aborda a mudança de significado da palavra “droga”, do medievo ao atual. O termo passa de “especiaria”, empregada na nutrição e em medicina, dicionarizado como tal, ao atual, de substância tóxica, ilícita e condenada. O tema é bem esclarecido e documentado.

Segue-se uma deliciosa descrição da “etiqueta” da alimentação canibal, por Ronald Raminelli, da Universidade Federal Fluminense. É a mais completa descrição do ritual e do consumo do cavim indígena, que chega a ser comparado por Claude d’Abbeville, em 1614, ao vinho branco francês… Segundo a “etiqueta” indígena, primeiro se bebe e depois se come…

Segue-se um estudo de Luis Mott sobre o consumo do vinho e da aguardente na Baia ao tempo da Inquisição, onde cerca de 450 processos são levantados.

A produção da aguardente de cana (e de outras origens) suas origens, história e consumo na América Portuguesa são estudados em profundidade por Leila Mezan Algranti, da Universidade Estadual de Campinas.

Carlos Magno Guimarães estuda o consumo da aguardente nas Minas coloniais junto aos quilombos e sua relação com o tráfico de escravos.

Com relação à política, Virgínia Valadares (Universidade Católica de Minas Gerais) estuda o relacionamento entre os poderes metropolitano e colonial relativamente ao comércio e ao consumo da aguardente das Minas Gerais no século 18.

Ainda do século 18 e 19 o trabalho de Betânia Gonçalves Figueiredo (Universidade Federal de Minas Gerais) sobre as drogas (na acepção antiga do termo) nas boticas e farmácias mineiras de então. É indiretamente um estudo da medicina rural brasileira do final do século 18 e início do seguinte. Curiosíssimos os ingredientes utilizados, do óleo de ouro aos excrementos humanos ou de animais. Medicamentos para qualquer doença para “natureba” nenhum botar defeito.

Seguem-se matérias sobre raízes medicinais: as mágicas origens da farmacopéia brasileira (Ricardo Ferreira Ribeiro – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), sobre Aguardente e Sedicão em Ouro Preto, 1831-1833 (Andrea L. Gonçalves e Renato P. Venâncio – Universidade Federal de Ouro Preto). Também de Ouro Preto, A falsificação de vinho na cidade de Ouro Preto no século 19, de Myrian Lopes e Eduardo S. Lima, da mesma universidade.

Sobre o tão falado Santo Daime dissertam Beatriz Caiuby Labate e Gustavo Pacheco, especialistas no tema, das Universidades de Campinas e Federal do Rio de Janeiro.

A matéria que mais nos chamou a atenção foi a Tiquira, do Maranhão o destilado da mandioca, de Tarcísio R. Botelho (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) muito boa, que esgota o assunto do ponto de vista histórico e da produção. A beberagem, bem pouco conhecida fora do Maranhão, é uma espécie de prima pobre da cachaça. Ao contrário do que muitos afirmam não é uma bebida de origem indígena. Como destilado que é não poderia ser índia. Afinal o processo da destilação chegou ao País com os europeus. Os índios apenas fermentavam suas bebidas.

Finalizavam o livro a “medicalização das drogas” (Maurício Fiore) e um oportuno esboço histórico do narcotráfico, por Thiago Rodrigues, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Concluindo, um livro dos mais importantes publicados entre nós nos últimos tempos

Leia a reportagem na íntegra em Diário do Comércio


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