História e Cinema

O passado como fonte de inspiração vital

O Estado de S. Paulo, Caderno 2 – Domingo, 08 de abril de 2007

O passado como fonte de inspiração vital

O livro História e Cinema reúne ensaios que tratam filmes como material de discussão de uma época

Ubiratan Brasil

De Moisés recebendo as tábuas com os Dez Mandamentos às torres gêmeas do World Trade Center desabando, nenhum fato relevante da história da humanidade escapou das lentes dos cineastas. Em seus mais de cem anos de trajetória, o cinema reproduziu e recriou momentos marcantes como a ascensão do Terceiro Reich ou o golpe militar brasileiro, em março de 1964. Tendenciosos ou fiéis à realidade, os filmes sempre oferecem uma experiência assombrosa e fascinante do passado. É a partir dessa ótica que se organiza o livro História e Cinema, coletânea de textos organizados por Maria Helena Capelato, Marcos Napolitano, Elias Tomé Saliba e Eduardo Morettin, que a Alameda Casa Editorial acaba de lançar.

Fruto de dois anos de trabalho, o livro, além de examinar as diferentes relações entre história e cinema, busca pensar o filme como objeto de discussão sobre uma época. Esse deverá ser o tema de um debate, na quarta-feira, na Cinemateca, onde o livro vai ser lançado. Além da conversa com os organizadores, prevista para começar às 20 horas, serão exibidos os filmes Explosion of a Motor Car e The Big Swallow, rodados em 1901 e 1902, respectivamente. Na mesma quarta-feira, aliás, a Cinemateca inicia um ciclo com filmes que tratam justamente dos temas discutidos no livro: obras como Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho; Aleluia, Gretchen, de Sylvio Back; e Metropolis, de Fritz Lang, entre outros (veja detalhes da programação no texto ao lado).

Os textos não se limitam a checar apenas se os filmes foram ‘fiéis’ ou não ao passado encenado. Um exame detalhado de cada obra permitiu a cada autor identificar a forma como foram concebidos os registros visuais e a organização de seu roteiro. ‘Nesse ponto, há uma dupla dimensão’, escrevem os selecionadores, no texto de introdução. ‘A primeira diz respeito às linguagens, técnicas e estilos que marcam o cinema como área de expressão artística; a segunda, envolvendo o aspecto iconográfico e ideológico da análise, ou seja, de que modo o cinema dialoga com outros suportes de veiculação de imagem que lhe são contemporâneos e que ajudam a compor o leque de opções que o contexto sociocultural oferece.’

Com o isso, o livro foi estruturado em cinco blocos. O primeiro examina a vocação do cinema em representar um fato passado, abrindo com uma análise de Ismail Xavier sobre Metropolis (1927), de Fritz Lang. Ele observa que esse clássico, a partir de referências extraídas de vários contextos socioculturais, torna a relação entre presente e futuro definida por formas narrativas e referências iconográficas do passado.

No bloco seguinte, denominado ‘Documentos em Imagens: Filmes de Arquivo’, os autores partem da montagem, um dos eixos centrais da organização de um filme, para mostrar como determinados cineastas conseguem um novo significado para um fato, mesmo trabalhando com imagens preexistentes. É curioso, portanto, o estudo de Maurício Cardoso, que parte de História do Brasil (1974), filme pouco conhecido de Glauber Rocha e Marcos Medeiros, para evidenciar as tensões entre a narração exagerada e o material de arquivo utilizado.

No mesmo bloco, Samuel Paiva, em outro texto interessante, utiliza um trabalho de Rogério Sganzerla, que reuniu o inacabado It’s All True, de Orson Welles, e os Cinejornais do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), um dos principais divulgadores da ditadura de Getúlio Vargas. A união permite descobrir a dicotomia entre a necessidade de ostentar imagens eternas (características de setores de propaganda, como o DIP) e a noção de história adotada pelo cinema.

Esse mesmo tema inspirou o trabalho de José Inácio de Melo Souza, que situa historicamente os cinejornais do DIP, recuperando, entre outros filmes, o significado da presença dos jangadeiros dentro desse universo, o que promove um diálogo entre seu texto e o que trata dos filmes de Welles e Sganzerla.

O terceiro bloco tem um aspecto mais temático e procura mostrar como cinema representou, direta ou indiretamente, um tema clássico do século 20: o tema da revolução e seu contrário, a contra-revolução. É possível encontrar aí textos como o de Mariana Villaça, que desconstrói o filme A Última Ceia (1976), de Tomás Gutiérrez Alea, permitindo estabelecer um intrincado jogo entre o passado escravista e o presente da Revolução Cubana.

É nessa seção também em que despontam verdadeiras jóias da cinematografia nacional, como Cabra Marcado para Morrer (1984), de Eduardo Coutinho, e O Desafio (1965), de Paulo César Saraceni. Ambos são analisados por Henri Gervaiseau e Mônica Campo, que partem da representação do regime militar brasileiro e o conseqüente impasse da esquerda.

Poucos temas foram tão constantes no cinema mundial como a guerra – tanto a local, envolvendo cidadãos de um mesmo país, como as que mobilizaram quase todas as nações do mundo. A representação da guerra como espetáculo fílmico e suas implicações estéticas e ideológicas é o tema que une os textos do quarto bloco. O Brasil é lembrado com Aleluia, Gretchen! (1976), de Sylvio Back, projeto (ambicioso) de contar 40 anos da história de uma família alemã no Sul, preocupando-se principalmente com a sinistra herança nazista. A obra inspirou a análise de Rosane Kaminski.

O quinto e último bloco de História e Cinema analisa as políticas culturais, sejam oficiais ou não, na área cinematográfica. No momento em que as leis de incentivo fiscal são cada vez mais contestadas, vale ler com atenção os artigos de Cláudio Almeida, que analisa a censura católica, e de Wolney Malafaia, sobre o mecenato praticado pelo regime militar nos anos 1970.

Assinantes do Estadão também podem ler a matéria no link abaixo:
http://www.estado.com.br/editorias/2007/04/08/cad-1.93.2.20070408.1.1.xml


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