O audiovisual e a pesquisa histórica
Diário do Nordeste, Fortaleza (CE) – quarta-feira, 23 de maio de 2007
Caderno 3 – Entrevista Eduardo Morettin
Doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Morettin pesquisa a complexa interface entre o cinema e a história. Em sua avaliação, qualquer registro audiovisual, ficção ou documentário constitui um importante documento de pesquisa – possibilita uma reflexão sobre o período no qual a obra foi viabilizada, revelando também as escolhas de seus realizadores.
Professor de História do Audiovisual da Escola de Comunicação e Artes da USP (ECA), Morettin investigou em seu mestrado e doutorado a obra do cineasta Humberto Mauro – filmes como “O Descobrimento do Brasil” (1937) e “Os Bandeirantes” (1940). Na última sexta, Morettin ministrou palestra na UFC, a convite dos Departamentos de História e Ciências Sociais. Abaixo trechos da entrevista que ele concedeu ao Diário do Nordeste
- Pegando carona no título de seu livro, “História e Cinema”, qual o diálogo existente entre as duas disciplinas? Um filme pode ser considerado como documento de uma época?
Vários foram os pesquisadores que se preocuparam com a relação entre cinema e história. Podemos afirmar que ela é tão antiga como o próprio cinema, como vemos em um documento de 1898, de autoria de Boleslaw Matuszewski, fotógrafo oficial do czar russo, publicado na revista “Cultures”. No caso brasileiro, encontramos no historiador José Honório Rodrigues, em um livro publicado em 1952, reflexões acerca das possibilidades que o cinema oferece para a pesquisa histórica. A partir dos anos 1970, o cinema, elevado à categoria de “novo objeto”, é definitivamente incorporado ao fazer histórico. Nos anos 90 o cinema, e mais recentemente, a televisão, ingressaram de maneira definitiva no universo do historiador brasileiro. Livros, teses, dissertações de mestrado, artigos em publicações especializadas e diversos tipos de materiais paradidáticos atestam a consolidação de um campo de trabalho no qual o fazer histórico procura integrar a dimensão imagética. Em relação a segunda pergunta, todo filme é documento e registro de uma época, pois sempre nos traz questões referentes ao período no qual foi feito. Mesmo o chamado filme histórico, que se distancia do nosso presente a fim de nos pôr em contato com uma representação do passado é também uma leitura de seu momento de produção.
Para o historiador, que produção cinematográfica constitui uma fonte de pesquisa mais instigante: a fictícia ou documental? Que cautela deve ter o pesquisador na análise destes dois gêneros?
Tanto a ficção quanto o documentário constituem fontes de pesquisas privilegiadas, pois o cinema exerce sobre nós um poder de convencimento que devemos sempre avaliar. As cautelas, digamos assim, residem em não tomar a imagem como a verdade em si, como se o filme, documentário ou ficção, fosse a visualização do passado. Pelo contrário, tais obras expressam leituras e escolhas que devem ser avaliadas pelo pesquisador. Para que essa avaliação seja feita de maneira adequada é preciso que o pesquisador conheça a linguagem cinematográfica a fim de entender o discurso produzido pelo filme.
Leia a entrevista completa no Diário do Nordeste
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