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Momentos decisivos da História de Antônio Vieira

O Estado de São Paulo
Domingo,23 de julho de 2008

Cultura

Momentos decisivos da História de Antônio Vieira
Estudo de João Lúcio de Azevedo sai pela primeira vez no País

Francisco Quintero Pires
O narrador de Biografia de Padeo Isidoro Cruz (1829-74), um dos contos de Jorge Luis Borges no livro O Aleph, diz existir um momento decisivo no destino de todo o indivíduo no qual el sabe para sempre quem é , e “que todo homem deve acatar o que traz dentro de si”. Padre Antônio Vieira teve seis. E acatou todos eles à sua maneira.
Pela primeira vez editado no Brasil, História de Antônio Vieira, do historiador português Joâo Lúcio de Azevedo, é uma biografia que apresenta a vida do jeuíta dividida em seis períodos. Assim, aparecem o religioso, o político, o missionário, o vidente, o revoltado e o vencido.
“ A contribuição mais impressionante de João Lúcio de Azevedo é animar os escritos com o caráter inteiro biografado”, diz Alcir Pécora, professor de literatura da Unicamp. “As imagens que fez do padre como um homem irrequieto, contraditório, temperamental,com desprezo pelo senso comum, mostram muitas fases distintas”, completa um dos maiores especialistas brasileiros na obra de Antônio Vieira (1608-1697). Ao fim da vida, o padre tornou-s vingativo e ressentido, mas sempre disposto a gestos generoses, lembra Pécora.
Alcir Pécora é o autor do prefácio da edição (780 págs., R$75) da Topbooks, que chega às livrarias no fim do próximo mês. A editora do Rio optou por um único volume, ao contrário da Alameda, que manteve a divisão original em dois tomos, publicados um 1918 e 1921, na sua edição (978 págs., R$98), que está nas livrarias. O prefácio é de Pedro Puntoni, professor de História da USP. Tanto a Topbooks como a Alameda basearam-se na revisão feita pelo biógrafo em 1931, considerada a definitiva, uma vez que o historiador morreu dois anos depois.
“A biografia de João Lúvio é ainda mais completa e bem documentada”, diz Puntoni. Essa é a mesmo opinião de Alcir Pécora, por uma razão simples”: “nunca antes alguém havia coligido tanta documentação, a maior parte dela inédita, sobre o padre”. Segundo Pécora, nenhuma outra obra importa, à exceção da primeira biografia –Vida do Apostolico Padre Antonio Vieyra(1746)-, de padre André de Barros, apesar de ela se constituir como “um panegírico fúnebre” a Antônio Vieira. Esse Livro, sancionado pelo Santo Ofício, tornou- se fonte primária para o estudo da vida do jesuíta.
Em seu livro, sancionado pelo Santo Ofício, tornou-se fonte priméria pra oe studo da vida do jesuíta.Em seu lviro, João Lúcio de Azevedo aprveitou com mais intensidade o conteúdo dos Sermões, além de ter pesquisado na correspondência, parte dela inédita, escrita por Vieira e divulgada a partir do século 18. O historiador portugês é o responsavél por Cartas do Padre Antônio Vieira, publicadas em três tomos entre 1925 e 28. (A editora Globo vai lançar pela primeira vez no Brasil, no fim deste mês, o primeiro volume dessas cartas, com prefácio de Alcir Pécora).
História de Antônio Vieira é o retrato de uma época e uma maneira de fazer história, segundo Puntoni. Tal como Vieira, João Lúcio é um luso- brasileiro: no fim da adolescência, o historiador veio para o Brasil, onde viveu por quase 30 anos. Há uma identificação entre o biógrafo e o biografado. Segundo Pécora, João Lúcio, João Lúcio conta com a “Ajuda extraordinária” do historiador brasileiro José Capistrano de Abreu. Ambos eram germanífilos, o que significa que buscavam “ ultrapassar o documentalismo positivista por uma tentativa de reconstrução nã apenas dos fatos, mas do caráter inteiro do biografado”.
Puntoni aponta um estilo de escrever história em João Lúcio que se enfraqueceu ao longo do século passado, por conta do assalto das ciências do Homem ao fazer histporiógrafico”. “’O resultato é um desencantamento, uma melancolia do conhecimento, perceptível nos representantes da geração da Nova História”, diz.
A histrória é, antes de tudo, literatura. “Sua afinidade, necessária, é com a narrativa e com a imaginação literária”’, diz Puntoni. “Livros como o de João Lúcio nos trazem o discreto prazer de ler textos de história escritos com as velhas soluções duscursivas que nunca deveriam fenecer”, completa.
Vida em seis atos:
O histoiriador português João Lúcio de Azevedo publicou a biografia do jesuíta em dois volumes (1918 e 1921), dividindo em seis capítulos.
• O religioso: Primeiro período (1608-40) aborda a formação do jesuíta em Salvador, na Bahia, e as suas primeiras relações com a política.
• O político: Segundo período (1641-50) retrata os serviços prestados por Antônio Vieira a D. João IV, além do seu desempenho como orador.
• O missionário: Terceito perído (1651-61) mostra o religioso, já decepcionado com a política, evangelizando os índios no Maranhão.
• O vidente: Quarto período (1661/68) fala de Vieira, de volta a Portugal, em conflito com a Inquisição e de sua ida a Roma.
• O revoltado: Quinto período (1669-80) revela a angústia do Padre, preterido por D. Pedro II e criticado por setores da sociedade.
• O vencido: Sexto período (1681-97) narra o fim de sua vida no Brasil, quando redigiu sua obra e ruminou as derrotas.


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