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Viagens Ultramarinas na Revista de História da Biblioteca Nacional

Revista de História da Biblioteca Nacional

Fevereiro de 2009

Livros:

Viagens Ultramarinas

Ronald Raminelli
Editora Alameda
320 páginas, R$46,00.
(www.alamedaeditorial.com.br)

Viagens Ultramarinas não é mais um livro sobre a epopéia das navegações e dos descobrimentos portugueses. Aliás, as viagens que o autor examina nada tinham de épicas, e não raro terminavam em desastre. Na verdade, o tempo destas viagens é o final do século XVIII, quando o Brasil foi percorrido de Norte a Sul, silenciosamente, por naturalistas formados em Coimbra e incumbidos pela Coroa de coletar informações sobre a terra, a flora, a fauna, os povos. Por vezes eram viagens intermináveis, como as de Alexandre Rodrigues Ferreira, autor da Viagem Filosófica. Em outros casos, eram curtas e limitadas. Ronald Raminelli conta várias dessas viagens, relacionando-as à produção do conhecimento nos quadros da Ilustração e à formação de museus de História Natural. Examina, ainda, os inventários visuais eventualmente produzidos, sobretudo no campo etnográfico. Mas a tese central do livro ilumina tramas quase desconhecidas do sistema de patronagem vigente no Império português, a saber, a troca de conhecimentos por mercês régias, muitas vezes cargos no âmbito do judiciário ou fazendário. No final do século XVIII, mostra-nos Raminelli, foi a Coroa que passou a tomar a iniciativa neste jogo, ao contrário do que ocorreu no século XVI, quando partia dos colonos a elaboração de relatos em troca de algum benefício. Entrementes, nos cem anos transcorridos entre a expulsão dos holandeses e a assinatura do Tratado de Madri, o jogo entre Coroa e “vassalos” privilegiou os feitos militares, verdadeiros ou falsos. Um hiato, portanto, já que o peso do serviço ligado à produção de conhecimento foi revigorado no fim do XVIII. O livro de Raminelli desvela, assim, um mecanismo muito particular do “governo à distância”. Ficamos sabendo mais sobre as engrenagens do Império português ou, por que não dizer, do antigo sistema colonial.

RONALDO VAINFAS É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE.


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