Feios, sujos e malvados
Agência FAPESP
Livro de professor da Unifesp analisa práticas da medicina em São Paulo na primeira metade do século 20 e destaca como as ideias biodeterministas perseguiram pessoas com comportamento considerado antissocial
Feios, sujos e malvados
Por Alex Sander Alcântara
Agência FAPESP – O determinismo biológico que norteou práticas da medicina e da criminologia na primeira metade do século 20 não é um acontecimento isolado no tempo. A conclusão está no livro Feios, sujos e malvados sob medida – A utopia médica do biodeterminismo, que acaba de ser lançado e põe em discussão a ideia de que a história dos determinismos biológicos é muito mais ampla e difusa no tempo e no espaço.
A publicação – focada na São Paulo da década de 1920 até 1945 – analisa os problemas sociais dos “feios, sujos e malvados”, ou seja, indivíduos com comportamentos considerados antissociais – os grupos mais visados eram criminosos, homossexuais, doentes mentais e mesmo operários e crianças.
De acordo com o autor do livro, Luis Ferla, professor de história contemporânea na Universidade Federal Paulista (Unifesp) em Guarulhos, a utopia médica do biodeterminismo defendia que, para melhor defesa da sociedade, os médicos deviam se lançar ao “grande projeto do conhecimento humano”. Ou, mais especificamente, ao “corpo do delinquente”, cujas particularidades “poderiam ajudar a explicar as disfunções e desequilíbrios da sociedade”.
“Ao médico cabia a tarefa de identificar corpos perigosos, para prevenir o crime antes que acontecesse. Ou seja, conhecer o criminoso antes que ele entrasse em ação. É isso que define o determinismo biológico, ou seja, a explicação da personalidade e de comportamentos a partir do corpo humano, desvalorizando condicionamentos sociais”, disse Ferla à Agência FAPESP.
O livro é resultado de pesquisa de doutorado e contou com apoio da FAPESP na modalidade Auxílio a Pesquisa – Publicações. Segundo o autor, o período estudado é o mais sintomático em relação às práticas biodeterministas. Após a 2ª Guerra Mundial, teria havido um recuo significativo dessas práticas por conta dos traumas associados à aplicação radical no regime nazista.
“Mas, desde as últimas décadas do século 20, e entrando no século 21, houve uma revivência, de forma diferente, desses ideais. O desenvolvimento extraordinário da ciência genética a partir dos anos de 1970, por exemplo, tem possibilitado uma sobrevalorização dos aspectos biológicos”, salientou Ferla.
veja também:
« Arte no Brasil no Boletim Mineiro
O governo dos povos no Boletim mineiro »



Notícias