Cachaça estimulava rebeldia entre os escravos no Brasil, diz pesquisa
Folha de S.Paulo
Cachaça estimulava rebeldia entre os escravos no Brasil, diz pesquisa
FABIO ANDRIGHETTO
colaboração para a Livraria da Folha
A cachaça desempenhou um papel econômico fundamental no Brasil durante período colonial. Além de servir como moeda de troca na relação escravista com a África, o produto era consumido por todas as classes sociais da colônia.
A aguardente e as drogas sempre foram vistas como elemento de supressão do ímpeto rebelde, e, portanto, seu consumo era – e ainda é – estimulado para a manutenção da ordem.
Segundo um estudo realizado por Carlos Magno Guimarães, professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), esse pensamento é equivocado. Grupos de escravos que consumiam aguardente apresentavam conduta violenta contra seus senhores.
O sociólogo João Roberto Gomes do Santos esclarece a questão usando como exemplo os usuários de crack “alguns aparentam passividade, outros apelam para crimes violentos”, afirma.
Fatores econômicos e religiosos também dificultavam o combate ao comércio da aguardente. “A umbanda ainda utiliza o produto e o tabaco”, lembra o sociólogo.
Em Álcool e Drogas na História do Brasil, uma coletânea de 14 textos, 17 pesquisadores debatem a história nacional investigando a influencia do uso de álcool e drogas.
Os especialistas reuniram documentos que provocam a reflexão sobre a prática, legal ou criminosa, dentro da sociedade. Abaixo, leia um trecho do livro.
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Ao se tornar um mecanismo que preserva a ordem escravista, a aguardente manifesta novamente seu caráter político*, na medida em que participava do condicionamento de parte da população, que era levada a aceitar os limites impostos pela estrutura de dominação vigente.
Mas, se o consumo da aguardente por parte da massa escrava atuava no sentido de amortecer seu potencial de rebeldia, há um outro lado desse consumo que se manifesta um aspecto contraditório. Em importante estudo sobre a vida dos escravos no Rio de Janeiro, na primeira metade do século XIX, Mary C. Karasch trata do que denominou “resistência não violenta” por parte dos escravos. Segundo essa autora, no conjunto da população escrava
muitos não escolhiam a violência para mudar sua situação, mas tentavam fazer duas coisas ao mesmo tempo: agradar aos seus senhores a fim de obterá alforria e melhorar suas condições de servidão. Assim, escolhiam formas menos violentas de resistência, como rituais espirituais para controlar seus senhores, diminuição do ritmo de trabalho e doenças fingidas para evitar o trabalho duro, apatia geral ou fatalismo, insultos e obscenidades e comportamentos autodestrutivos, como excessos de bebida e abuso da maconha… Na visão dos senhores, a bebida, depois da preguiça e do roubo, era o grande defeito da população negra. (Karasch, 2000, p.435)
O uso da aguardente era comum entre os escravos, inclusive mulheres, pois era “um gênero básico barato da dieta dos cativos” e “suplementava dietas inadequadas”. Além disso, era “parte importante da vida social dos escravos” (ibidem, p. 437)
Em Minas Gerais, o consumo de aguardente pela população em geral, e pelos escravos, fez parte do cotidiano desde o início da colonização. Paralelamente, o combate à instalação de engenhos e à fabricação de aguardente também fez parte dos mesmos contexto e dinâmica sociais.
Os motivos alegados pelos governadores, camaristas e mineradores para a repressão à produção e ao consumo da aguardente eram de diferentes naturezas. Em 1716, o governador D. Brás Balthasar da Silveira proibiu a montagem de engenhos sob a alegação que eles promoviam a ruína das minas. O governador seguinte, D. Pedro de Almeida, conde de Assumar, continuou a repressão aos engenhos por considerar que “eram a perdição deste país”, dentre outros motivos, pela grande quantidade de escravos que neles estavam empenhados (Costa filho, 1963, p.105-7).
Durante todo o seu período de governo, Assumar combateu os engenhos existentes nas Minas e agiu sempre para impedir que novos engenhos fossem instalados. Para o conde, entretanto, era forçoso reconhecer que não possua os mecanismos adequados e suficientes para fazer cumprir as determinações da coroa ou as suas. Segundo Miguel Costa Filho:
a esta altura, revela-se um motivo, quiçá oculto até então, que influía no ânimo da administração metropolitana… era necessário ter grande atenção para que os referidos “molinotes” não subissem a tal número que prejudicassem a aguardente e os vinhos do reino. (1963, p.113)
Apesar das campanhas implementadas pelos governadores as longo do século, os mineiros continuavam a levantar engenhos e a fabricar aguardente, que também era consumida pelos escravos, os quais, por isto, continuavam a ser vistos como um problema a demandar solução.
Um dos motivos recorrentes para justificar a repressão ao fabrico e ao consumo de aguardente pelos escravos era o risco de ocorrência de acidentes nas minas, o que acabava com um duplo prejuízo: a inutilização ou perda do escravo e por decorrência, a inviabilização do produto do seu trabalho. Muitas áreas de mineração continham grande número de poços profundos, nos quais as quedas geralmente provocavam a morte.
A repressão ao consumo de aguardente nas imediações das minas se fez também, sistematicamente, com o intuito de impedir que as “negras de tabuleiro” funcionassem como intermediárias no desvio dos “jornais” devidos pelos escravos aos seus senhores. Ao longo do século, sucessivos bandos proibiram a venda de comidas e bebidas perto das lavras (Figueiredo, 1993). A insistência na emissão de tais bandos é a evidência de que a eficácia deles era, pelo menos, duvidosa. É importante ressaltar o fato de que as negras de tabuleiro não vendiam apenas aguardente, mas tinham participação importante nessa modalidade de comércio.
Em síntese, a presença da aguardente no contexto dos quilombos mineiros do século XVIII deve considerar o fato de que a bebida em questão participava da realidade africana em um processo de desagregação cultural e no tráfico de escravos, e participava da realidade colonial brasileira como hábito de consumo da população em geral, incluindo aí parte da escravaria. Na realidade colonial, a aguardente evidenciava seu caráter contraditório. Ao mesmo tempo que contribuía para a manutenção da ordem escravista, era combatido como ameaça a essa mesma ordem e como agente que acarretava prejuízos para determinadas categorias: como foi o caso, já citado, dos mineradores proprietários de escravos. É nesse contexto, no qual a apresenta este caráter, que se localiza, também, sua presença na realidade dos quilombos.
A presença da aguardente nos quilombos no Brasil colonial, e em Minas gerais em particular, toca em alguns aspectos que devem ser abordados separadamente. O primeiro trata da percepção da aguardente como capaz de gerar nos escravos um comportamento rebelde ou desordeiro. O segundo diz respeito à origem da aguardente consumida pelos quilombolas. E, em terceiro lugar, a aguardente deve ser considerada no universo da repressão aos quilombos, já que também ali ela se faz presente.
Com relação ao primeiro aspecto, iniciamos com uma referencia a Gomes Freire de Andrade, conde de Bobadela, que por três vezes ocupou o cargo de governador da Capitania de Minas Gerais. O primeiro e o segundo mandato de Gomes Freire ocorreram no bojo de uma onda quilombola: de 1733 a 1748, pelo menos 49 quilombos foram descobertos e destruídos na capitania (Guimarães, 1999).; Logicamente, esse contexto influiu na visão que o governador tinha dos escravos e de seu comportamento.
Em resposta a uma consulta da Coroa sobre a possibilidade de implantação de engenhos em Minas, para a produção de melados e aguardentes, o conde argumentou sobre a necessidade de impedir a proliferação destes para evitar que os escravos consumissem aguardente, o que traria como prejuízo danos à saúde deles, além de desordem e rebeldia. Comentando a resposta do conde, afirma Miguel Costa Filho que
se é certo que…a cachaça levou muitos negros à morte… é de imaginar que muitos terão encontrado nela força, energia e coragem para fugirem do cativeiro, para concorrerem até onde se achavam os seus irmãos de raça, de sofrimento, quando não de sangue, nos quilombos que salpicavam o território das minas como último reduto da liberdade. (1963, p.115-16)
A associação da aguardente com a possibilidade de rebeldia por parte dos escravos não era nova na época de Gomes Freire. Segundo Luiz Felipe de Alencastro,
aproveitando o temor gerado pelos quilombos surgidos na serra dos Órgãos, os importadores de bebidas do reino afirmavam que o consumo de cachaça havia causado rebeldia dos negros. Em consequência, provisão régia de 1659 aplica penas severas aos infratores, ordenando que todos os alambiques da capitania fluminense fossem trazidos até a cidade a fim de serem amassados e destruídos. (2000, p.316)
*Política entendida conforme Bobbio
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