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As inquietações de Wesley

O Estado de S. Paulo / Caderno2 – 19/07/2010

AS INQUIETAÇÕES DE WESLEY
Mostra feita como tributo ao controverso artista promove seu reencontro com o público carioca

Camila Molina
ENVIADA ESPECIAL
RIO

É uma frase mentirosa, reconhece, mas a usa mesmo assim o marchand e diretor da Pinakotheke Cultural, Max Perlingeiro: “Wesley Duke Lee nunca expôs no Rio de Janeiro.” É que, apesar de terem sim ocorrido na cidade carioca, desde 1964, mostras do artista paulistano, há uma sensação de que ele tenha sempre feito mais ‘barulho’ em São Paulo.

Como em outubro de 1963, quando Wesley criou, literalmente, estardalhaço com o happening Grande Espetáculo das Artes no João Sebastião Bar, na Rua Major Sertório, na capital paulista – nele apresentava para uma multidão desenhos eróticos da Série das Ligas vistos com lanternas em meio a um striptease. Ou ainda, quando fundou em São Paulo, em 1966, com outros artistas, a Rex Gallery (leia mais no texto abaixo), espaço alternativo em que se propunha nova relação de mercado de arte.

“Estava sempre cheio de ideias. Para ele, tudo se resumia em festa”, diz agora Max Perlingeiro, que conheceu o artista, “um personagem de terno e chapéu, um dândi, mas um homem sempre à frente de seu tempo”, como diz, em 1968, na Petite Galerie do Rio. Desde então, muitos anos se passaram e apenas em 2006 o marchand, curador e editor veio a São Paulo encontrar Wesley novamente e lhe propor a realização de uma grande mostra com suas obras para o público carioca.

O projeto rendeu frutos e amanhã será inaugurada na sede da Pinakotheke Cultural, um casarão da década de 1910 no bairro de Botafogo, no Rio, a exposição Wesley Duke Lee, que reúne 65 obras do controverso e irreverente artista, tão amado por uns – e mestre de criadores como Carlos Fajardo, Frederico Nasser, José Resende e Luiz Paulo Baravelli – e tão criticado por outros (durante a ditadura, por ser deliberadamente ligado aos EUA – seu avô era americano – e considerado um‘alienado’de direita). Tanto que em 1964, como define a historiadora Cacilda Teixeira da Costa, Wesley se sentiu “hostilizado” no Rio, “sobretudo por motivos ideológicos”, pelo grupo de criadores que propunha novas formas de criação – entre eles, por Lygia Clark, Lygia Pape e Ivan Serpa,“mas não por Oiticica”. Entretanto, diz Cacilda, os integrantes da geração seguinte, de Antonio Dias, Gerchman e Vergara, o receberam bem e foram influenciados por sua obra.

A mostra atual, é assim, mais um reencontro do “salmão na corrente taciturna”, como definiu o historiador Walter Zanini, ou seja, de Wesley, nome essencial em se tratando das décadas de 1960 e 1970 no Brasil, com o Rio.

Total. Tributo, a mostra organizada por Perlingeiro, que entrevistou diversas pessoas ligadas ao artista em sua pesquisa, é uma boa oportunidade de se acompanhar toda a carreira de Wesley Duke Lee – hoje com 78 anos e enfermo, com o mal de Alzheimer –, passando por criações como desenhos, pinturas, “obras ambientais” e objetos realizados entre 1952 e 1999, algumas delas pontuais como o tríptico O Nome do Cadeado É: As Circunstâncias e Seus Guardiães (66); A Zona: Considerações. Retrato de Assis Chateaubriand (68); os desenhos da Série das Ligas (63), os da Zona (65) e os da Caligrafia (1977), as criações de sua “fase lisérgica”, de 64.

Uma das passagens especiais da mostra na Pinakotheke – que, curiosamente, por ter como espaço expositivo os cômodos do casarão antigo tombado, se torna uma exposição intimista – é a sala dedicada ao emblemático happening Grande Espetáculo da Arte, de 1963. No João Sebastião Bar, além dos desenhos das Ligas e de um strip-tease às avessas, era exibido um filme em que a pintora Maria Cecília Gismondi andava pelas ruas de São Paulo vestida de gala, numa performance registrada em película pelo fotógrafo Otto Stupakoff (os dois eram companheiros de Wesley no “movimento do realismo mágico”). O filme se perdeu, mas Perlingeiro encontrou fotografias inéditas que um assistente de Stupakoff realizou como making of da performance. A sequência de imagens se transformou em um filme que possibilita uma recriação do espírito do happening.

É uma exposição completa, levando-se em conta que em 1992 houve retrospectiva do artista no Masp, apresentada também no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio. Mostra feita agora quase em sua totalidade com obras de coleções particulares brasileiras e estrangeiras, coloca também a biografia de Wesley, o “realista mágico” como inúmeras vezes ele próprio se define, e criador de alter egos – por meio de fotos, documentos, vídeos com depoimentos de entrevista do artista concedida à TV, cartas de amor que trocou com Lydia Chamis, a máscara de Noh que ganhou como prêmio na Bienal de Tóquio, em 1965. Acompanha, ainda, a mostra o livro Wesley Duke Lee (Edições Pinakotheke, 164 págs., R$ 110), com textos de Perlingeiro, Thomaz
Souto Corrêa, dos artistas Nelson Leirner, Antonio Dias e Carlos
Vergara e cuidadosa cronologia feita por Cacilda Teixeira da Costa, especialista na obra de Wesley.

Polêmico, sedutor, inquieto, bem-humorado, crítico e atualmente “muito cobiçado” no mercado, como diz Perlingeiro, exemplificando que um desenho do artista da Série das Ligas está avaliado em US$ 20 mil, Wesley Duke Lee teve sua formação em publicidade e propaganda nos EUA. A mostra ressalta toda a gênese de sua arte, destacando as reverberações do pop americano em suas criações, os conceitos de Duchamp e ainda um fascínio pelas artes clássica e oriental.

QUEM É

WESLEY DUKE LEE
ARTISTA PLÁSTICO

Desenhista, pintor, gravador, artista gráfico e professor, nasceu em dezembro de 1931 em São Paulo, onde vive. Teve ainda como formação a publicidade nos EUA.

WESLEY DUKE LEE. Pinakotheke Cultural. Rua São Clemente 300, (21) 2537-7566, Rio de Janeiro. De 2ª a 6ª, 10 h/18 h; sábado, 10h/16h (fecha domingo). Grátis. Até 2/10. Abertura amanhã, às 20 horas, para convidados.

O ARTISTA E O GRUPO REX NA 29ª BIENAL DE SÃO PAULO

Uma carioca quis, em 2002, “estudar um tema paulista”, a história do Grupo Rex e da Rex Gallery, fundada por Wesley Duke Lee, Nelson Leirner, Geraldo de Barros, Frederico Nasser, Carlos Fajardo e José Resende, iniciativa que movimentou a cena de São Paulo entre junho de 1966 e maio de 1967 com happenings (em que sempre chegava a polícia), festas, mostras e evocações de uma maneira alternativa de se fazer mercado. A crítica Fernanda Lopes, de 31 anos, defendeu como tese de mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro o premiado e pioneiro trabalho A Experiência Rex, transformado em livro pela Alameda Casa Editorial. Mais ainda, agora seu estudo é tema de sala especial com sua curadoria na 29ª Bienal de São Paulo, a ser inaugurada em setembro.

O tríptico O Nome do Cadeado É: As Circunstâncias e Seus Guardiães de Wesley Duke Lee, que integra a mostra do artista na Pinakotheke Cultural no Rio, será transportado para São Paulo para ser um dos destaques da sala, já que foi exibido originalmente na Rex Gallery. Como ainda conta Fernanda, outras obras de Leirner, Geraldo de Barros, Fajardo e Resende – exceto de Nasser, que abandonou a carreira de artista – estarão na Bienal, assim como um vídeo, os originais dos cinco jornais Rex Time publicados pelo grupo na época (e serão feitas tiragens de 5 mil exemplares fac-símiles de cada edição, a serem distribuídos na mostra), cartazes de suas exposições e documentos. “É a primeira exposição que se faz sobre o Grupo Rex”, diz Fernanda, que foi convidada pela curadoria da 29ª Bienal para este trabalho e teve autonomia total para conceber a sala da mostra, que ficará no terceiro piso do pavilhão. Ela conta ainda que para fechar a mostra, procura as obras They Are Kissing (Negative) e Cena de Sofá II (Fantasia Agressiva), ambas de 64 e de autoria de Geraldo de Barros.

“Rex era mais uma atitude do que uma escola plástica”, afirma a curadora, que tomou como desafio transpor para os dias de hoje a história e as motivações do grupo na Bienal que tem como mote discutir as relações entre arte e política, muitas vezes, no sentido de ressaltar práticas históricas ou atuais de quebra de convenções. Wesley Duke Lee teve um papel fundamental na ‘experiência Rex’ – o título em inglês da galeria e do jornal foi ideia dele, por exemplo. / C.M.


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