Libertários, combativos e esquecidos
O Globo / Segundo Caderno / Domingo, 18 de julho de 2010
Libertários, combativos e esquecidos
O circuito de artes relembra Wesley Duke Lee, em exposição no Rio, e seu Grupo Rex, que terá uma sala na Bienal de SP
Suzana Velasco
RIO – Wesley Duke Lee foi pioneiro nos movimentados anos 60, fez um dos primeiros happenings dos quais se tem notícia no país e criou uma arte singular, mas ficou um tanto esquecido nas últimas décadas. Assim como seu nome é muitas vezes mais lembrado do que sua obra, o Grupo Rex, do qual participou de 1966 a 1967, é citado nos livros de História da arte, mas as obras produzidas no período nunca foram exibidas juntas. Agora, o circuito de artes relembra tanto Lee, numa exposição que será inaugurada na terça-feira na Pinakotheke Cultural, quanto o Rex, que terá uma sala só para ele na próxima Bienal de São Paulo, em setembro.
Para a historiadora da arte Cacilda Teixeira da Costa, parte do esquecimento de Lee se deve a seu isolamento em relação à atuação política que dominou o meio artístico nos anos 70. Hoje, o artista sofre do mal de Alzheimer e é tratado numa clínica em São Paulo.
- Ele teve uma atitude política muito independente, se recusava a fazer protestos, sempre achou que seu trabalho tinha que sair da alma – conta Cacilda, autora de “Wesley Duke Lee: um salmão na corrente taciturna”. – Ele foi pioneiro no Brasil, foi o introdutor da nova figuração, mas quase ninguém fala disso.
Sua defesa da arte figurativa era um combate direto ao academicismo da abstração que se firmava no país. E o combate acabou sendo não apenas estético. Apesar do afastamento de uma geração que entrou de cabeça na arte política com o endurecimento da ditadura militar, Lee foi político pela coragem de desafiar instituições e apostar não no sucesso comercial, mas na potência da própria criação. Algumas de suas obras historicamente mais importantes demonstram esse espírito libertário e estão entre as 65 peças (dos anos 60 aos 90) selecionadas por Max Perlingeiro, diretor da Pinakotheke, que ainda reuniu fotos, cartas e peças gráficas.
“Composição de um movimento rosa” (1952), formada por um tubo de estireno emoldurado, foi recusada pela segunda Bienal de São Paulo. Em 1965, foi o artista quem retirou sua obra da bienal, porque a fundação fechou uma porta que revelava pelos pubianos e um espelho. Diante da censura, Lee adaptou o trabalho e criou o tríptico “O nome do cadeado é: as circunstâncias e seus guardiões”, com uma tarja preta sobre uma das telas e um retrato austero, pintado por Almeida Júnior, cobrindo o rosto de Ciccillo Matarazzo, fundador da Bienal de SP. A obra, enfim, estará na bienal, saindo da exposição no Rio para a sala dedicada ao Rex.
Foi da rejeição à sexualidade de outras obras que surgiu um dos primeiros happenings no país, em 23 de outubro de 1963, no João Sebastião Bar, em São Paulo, onde Lee expôs desenhos da série “Ligas”. Com traços de ligas femininas e inspiradas em Lydia Chamis, sua mulher, as obras foram recusadas por diversas galerias. A série será exposta na Pinakotheke, ao lado de um vídeo com imagens do happening.
Foi a sucessão de recusas que levou Duke Lee a criar o Grupo Rex, junto com outros artistas que também causavam incômodo com sua arte: Nelson Leirner e Geraldo de Barros. Era 1966, e os três resolveram criar sua própria galeria – a Rex Gallery & Sons – e seu próprio jornal – o “Rex Time” -, convidando muitos artistas a participar. Só aceitaram José Resende, Carlos Fajardo e Frederico Nasser, que saiu antes de o grupo terminar, em 1967.
- Muitos artistas tinham medo de perder o pouco que haviam alcançado comercialmente – lembra Leirner. – Não queríamos depender de nenhum espaço nem da mídia, tudo que ia contra o nosso espírito dadaísta. Como a galeria era na loja do Geraldo, só tínhamos despesa com o jornal. Não vendíamos, não gastávamos e nos divertíamos.
Bienal procura duas obras
Na última exposição do Rex, Leirner pôs todas as obras à disposição do público, que levou tudo em poucos minutos. Um dos poucos trabalhos de Leirner que restaram do período foi “Adoração (altar para Roberto Carlos)”, obra do acervo do Masp que estará na Bienal. Fernanda Lopes, curadora do espaço dedicado ao Rex, diz que nuca antes foram reunidas obras produzidas por cada artista no período. Autora do livro “A experiência Rex”, Fernanda também reuniu documentos e as cinco edições do “Rex Time”, e está à procura de duas obras desaparecidas: “They are kissing (negative)” e “Cena de sofá II (Fantasia agressiva)”, de Geraldo de Barros.
- Eles nunca assinaram trabalhos juntos, essa nunca foi a proposta. Em termos plásticos, o que os une é uma nova percepção de arte e o uso de outros materiais. O Fajardo diz que era uma união muito improvável, porque eles vinham de escolas muito diferentes, mas todos tinham uma motivação comum – diz Fernanda, que relaciona a atuação do grupo à proposta política da bienal. – Foi um dos primeiros grandes momentos em que os artistas se voltaram para uma questão de política da arte, que se ampliou muito nos anos 70.
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Entrevista com Mauricio Stycer, autor de História do Lance!, no site Ludopédio »



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