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Entrevista com Mauricio Stycer, autor de História do Lance!, no site Ludopédio

Mauricio Stycer

Equipe Ludopédio
20.07.2010

O jornalista carioca Mauricio Stycer está em São Paulo há mais de vinte anos. Foi repórter e editor de alguns dos principais jornais e revistas do Brasil. Membro da equipe que criou o Lance!, em 1997, posteriormente Stycer realizou uma pesquisa de Mestrado no Departamento de Sociologia da USP sobre a experiência editorial singular vivida no jornal esportivo, publicada no livro História do Lance! – Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo. Nesta entrevista, o autor relata sua carreira jornalística, os primeiros passos como pesquisador, a experiência como docente e analisa algumas das principais questões abordadas em seu livro.

Qual a sua formação e quais as razões para a escolha do jornalismo como profissão?

Sou graduado em Economia pela UFRJ e Jornalismo pela PUC-RJ. Fiz mestrado 20 anos depois de formado, em Sociologia na USP. Não sei dizer por que sou jornalista. Sempre, desde jovem, fiz jornalzinho no colégio. No ginásio, colegial, todo lugar em que ia fazia um jornal. Acho que é uma coisa um pouco natural, sempre escrevia muito. Mas não virei jornalista porque eu gostava de escrever. Não sei, nunca pensei em fazer outra coisa. O único momento de pressão paterna foi quando fiz o vestibular para Economia, pois nos anos 70 jornalismo ainda não era uma carreira com o status que tem hoje. Então cursei Economia junto com Comunicação. Foi um curso muito legal de ter feito. E resolvi ir até o fim e acabar. Sou formado, mas nunca peguei o diploma. Em seguida, comecei a trabalhar no Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, na área de cultura, que era a que eu mais gostava. Logo, em menos de um ano, fui chamado para trabalhar no Estadão, aqui em São Paulo, no final de 1986. Já estou completando 24 anos de São Paulo.

Conte um pouco sobre sua trajetória jornalística – passagens pelo Jornal do Brasil, Estadão, Folha de S.Paulo, Época, Carta Capital etc. –, sobre a decisão de trabalhar em São Paulo e o envolvimento com o jornalismo esportivo em diferentes veículos.

Eu sempre trabalhei na área de Cultura. No Rio de Janeiro, trabalhei no Caderno B do Jornal do Brasil. Zuenir Ventura era o editor desta seção. Estava começando aqui em São Paulo o Caderno 2 do Estadão. No final de 1986 houve uma crise e metade da equipe pediu demissão. O editor, Luiz Fernando Emediato, começou a chamar gente jovem para trabalhar. Só de ler o Jornal do Brasil, ele me chamou, pois não me conhecia pessoalmente. Eu vim para cá e trabalhei um ano e meio no Caderno 2. Depois, me convidaram para trabalhar na Folha de S.Paulo, no caderno Ilustrada, onde fui editor assistente durante 1 ano. Depois, fui chamado para ser editor de Turismo da Folha. Acabei me afastando do jornalismo cultural. Fui chamado para ser editor de cidades, no caderno Cotidiano. Eu me lembro de pensar: “Pô, um carioca vai editar o caderno de cidade”. E me falaram: “É isso mesmo, a gente quer um olhar estranho, diferente”. Fiquei quase dois anos como editor do Cotidiano. Depois fui correspondente do jornal em Roma. Voltei e passei a atuar como repórter especial, momento quando comecei a fazer mais coisas de esporte também. Mas não só isso, pois o repórter especial é o cara que trabalha em todas as áreas. Fiquei quatro anos nessa função, fazendo reportagens especiais. Foi nessa época que me chamaram para participar da equipe que criou o Lance!. Isso foi no final do primeiro semestre de 1997. O Lance! começou a se reunir em julho e estreou em outubro de 1997. Foi quando vivi mais intensamente o jornalismo esportivo: participar da criação, pensar o jornal e seleção da equipe. Já imaginava que um dia eu faria alguma coisa sobre aquele momento. Desde o Jornal da República, criado pelo Mino Carta em 1979, não se criava um jornal daquele porte no Brasil. Um jornal grande, ambicioso, com tanto investimento. Um pouco da minha escolha de participar foi por causa disso. Todo jornalista tem o sonho de fazer um jornal: “Pô, eu fiz esse jornal”. E há muitos anos não tinha um jornal novo. Acho que muita gente foi para o jornal por conta disso. Eu não fui por causa do jornalismo esportivo. Fui pela aventura de fazer um jornal. Acabei por me interessar muito. Sempre gostei de jornalismo esportivo. Vivi aquilo muito intensamente. Menos de um ano depois, fui convidado para participar da criação da revista Época, para cuidar da seção de cultura. Como eu gostava deste assunto há muito tempo, eu aceitei. Eu estava um pouco cansado, pois a experiência no Lance! foi muito intensa. Trabalhava-se demais, estava esgotado. Fui para a Época e fiquei três anos lá. Foi uma experiência legal. É bacana ver um negócio que você ajudou a criar ainda existir. Em seguida, fui chamado para trabalhar na revista Carta Capital, que era quinzenal e passaria a ser semanal para competir com a Veja e a IstoÉ. Isso foi em abril de 2001. Trabalhei na seção da cultura da Carta Capital. Foi uma aventura sensacional. Fiquei seis anos na Carta, sendo quatro anos só cuidando da seção de cultura. Quem me convidou foi o Bob Fernandes, o redator-chefe na época. No final de 2004 ele saiu e no início de 2005 assumi a função de redator-chefe durante 2005 e 2006. Trabalhei direto com o Mino Carta, foi uma experiência muito bacana. Neste momento eu parei para fazer a dissertação na Sociologia da USP, fiquei quase um ano só dedicado a isso. Depois, fui trabalhar na Glamurama Editora, que edita a revista da Joyce Pascowitch e tem um site de fofoca e celebridades. Eu era o número dois da editora, responsável pelo gerenciamento de toda a área editorial. Depois de 1 ano, fui chamado para o portal IG, onde fiquei 1 ano e meio como repórter especial e pude fazer muito jornalismo esportivo. Agora estou no UOL fazendo a mesma coisa. Tenho um blog e sou repórter do portal. Comecei em janeiro, fazendo crítica de televisão, fazendo reportagem e um blog de assuntos gerais.

Quais foram as principais influências (suas e da equipe) para a construção do Lance!?

Uma coisa muito peculiar do Lance! é a que a ideia do jornal foi, primeiro, sugerida por um designer gráfico espanhol e inspirada em dois jornais estrangeiros: o Olé, da Argentina, que tinha nascido um ano antes, por sugestão deste mesmo designer catalão (que também fez a última reforma do Estadão); e a outra influência foi o Marca, da Espanha. O dono do Lance!, Walter de Mattos, trabalhava no O Dia (onde era o braço direito do dono do jornal), foi para Europa, para a Espanha especialmente, onde estava muito vigoroso o mercado jornalístico esportivo. Um dos casos mais interessantes era do Marca, um jornal que estava falido, alguém comprou o título, transformou e o jornal virou um fenômeno, vendendo muito. O Walter tinha isso em mente quando foi fazer o Lance!. Tem uma coisa forte, muito parecida com o Marca (que é muito Real Madrid), de trazer manchetes “para cima”. Se o Real está mal, você não vai dizer: “Real acabado”. Ao contrário, você diz: “Esperança de melhora com a chegada de…”. Sempre buscando uma coisa que eleve a moral. É claro que não vai mentir, mas sim realçar algo que anime o leitor. O que para um jornalista da velha escola é muito estranho. Para nós, a notícia é sempre o que está ruim, o que está errado. E o Olé também ia muito bem na Argentina. Não sei hoje, mas quando o Lance! foi lançado estava bem por lá. Olé e Lance! são muitos parecidos: no formato, graficamente, no humor. Um caso célebre desse jornalismo “para cima”. Na Copa de 1998, a Argentina foi desclassificada e no dia seguinte a capa do Olé era assim: “E quando começa o Apertura?”. Não era dizendo: “A Argentina perdeu”. Esse é um belo exemplo. Se fosse na Folha de S.Paulo, ou O Globo, seria “Por que o Brasil fracassou”. “O que deu errado”. No Lance! seria diferente.

Como surgiu a ideia de estudar o jornalismo esportivo em seu mestrado? E por que a Sociologia?

Quando cheguei no Lance!, pensei: “O que estou vivendo aqui é muito interessante”. Tinha uma geração atrás de mim que não teve a experiência de criar um jornal. Não conhecia ninguém que podia falar: “Eu participei da criação de um jornal”. Tive a percepção e comecei a guardar e-mails, memorandos etc. Tudo que passava na minha mão ligado àquela história. Segundo, entre 1994 e 1996 eu tive minha primeira experiência como professor de jornalismo um pouco antes de trabalhar no Lance!. Dei aula na Cásper Líbero, por um breve período. Os cursos de jornalismo têm professores que são profissionais em atividade no mercado, mas não foram formados para dar aula. Eu achei legal. Nunca tinha pensado em dar aula. Fui chamado um dia para dar aula e gostei. Achei bacana essa experiência de contato com jovens, falar da minha experiência, discutir assuntos do jornalismo. Quando comecei a trabalhar no Lance!, juntou essa experiência com a ideia de uma pesquisa. Em 2001, eu voltei para a Cásper Líbero, com uma nova direção. Foi quando se criou um centro de pesquisa na Cásper Líbero, que dava bolsas para professores que faziam pesquisa. O então coordenador de Jornalismo, Marco Antonio Araujo, falou para eu apresentar um projeto. Eu caí na conversa dele (risos), apresentei o projeto e decidi fazer sobre a formação do Lance!. Ganhei uma bolsa de 1 ano para fazer a pesquisa. Com essa bolsa decidi entrevistar todos que tinham participado do jornal. Ainda não tinha um projeto fechado, mas minha ideia era fazer uma grande reportagem sobre a história do Lance!. Só que em certo momento, houve um problema na Cásper, um grupo de professores fez greve e muitos pediram demissão. Como eu fazia parte do movimento grevista, tive que interromper o trabalho. Parei, mas fui contaminado pelo “vírus” da pesquisa. Quando estava na Carta Capital, tive dois encontros com o sociólogo Sergio Miceli, para entrevistá-lo. No segundo contato, durante o lançamento de um livro dele sobre o modernismo brasileiro, eu puxei o assunto sobre a pesquisa, não sei bem por que (risos). Eu sei por que eu não queria ir para a ECA. Quando comecei a dar aula, via quem eram os caras que estavam discutindo na área de Comunicação e eu achava que eram todos chatos. Não tinha diálogo. No fundo, havia grande rivalidade, ou melhor, ainda tem: entre jornalistas que trabalham no mercado e os acadêmicos da Comunicação. E eu não percebi isso com o Sérgio. Ele tinha tanta curiosidade em relação a mim quanto eu tinha em relação a ele. Além de ter uma grande admiração por ele, lendo os trabalhos dele, alguma coisa me fez perguntar: “E se eu for fazer mestrado na Sociologia?”. Ele falou: “Se você passar, eu te oriento”. Portanto, eu sei por que eu não fui para a ECA (Escola de Comunicação e Artes), mas porque eu fui para a sociologia é uma coisa mais intuitiva, uma simpatia grande pelo Sergio Miceli, uma curiosidade. Algo que eu não percebia no pessoal de Comunicação. Se você for olhar as pesquisas que são feitas lá, é sempre uma coisa contra a imprensa, com preconceito, nunca tentando entendê-la (o que não implica defender). Existe um problema mesmo entre os comunicólogos e os jornalistas.

E com os sociólogos? Como foi a sua inserção na Sociologia, visto que há uma conturbada relação entre os campos “acadêmico” e “jornalístico”?

Eu fui muito bem recebido aqui. Até agora, no doutorado, perguntam “o que eu estou fazendo aqui?”. Mas nunca foi hostil, quase nunca (risos). De um modo geral, a recepção foi bem simpática. Participei de tudo que tinha que participar. Fiz tudo com prazer, realmente me empolguei. Quando entrei, a banca sugeriu que fizesse matérias como ouvinte na graduação para me inteirar sobre os temas. Eles viram que era sério. E a recepção da dissertação e do livro foi muito legal. Havia curiosidade para saber como estava o trabalho. Alguns brincavam dizendo que o filho era leitor do Lance! e ficou empolgado para ler a dissertação.

O que a sua própria experiência como jornalista e editor-chefe – ou seja, um ator social – dentro do projeto inicial do Lance! trouxe de singular para a dissertação de mestrado? O acesso irrestrito e em primeira mão ao material empírico (conversas, atas de reuniões, etc) foi a principal diferença?

Isso é indiscutível. A questão é que em algum momento, antes de eu começar a trabalhar na Sociologia, eu achava que isso era suficiente para uma investigação, que ter tido esse acesso irrestrito era suficiente para contar uma história. Eu acho que era uma perspectiva muito jornalística: preciso contar uma história, procuro os atores, entrevisto, ouço as diferentes versões, faço uma síntese e tenho uma história. Tinha essa especificidade. Além de estar entrevistando, eu era um ator e tinha uma vantagem de poder confrontar essas pessoas com minhas próprias experiências, o que de alguma maneira intimida estes atores a tentarem me enganar (pois não existe essa coisa do sujeito contar a verdade, mas sim uma versão). Mas se eu conheço intimamente a história, fica mais difícil o cara te enganar. Posso o tempo todo refutar, questionar. As entrevistas foram muito interessantes por isso. Tem um caso que eu conto sobre um editor de fotografia do Lance!. A área que teve mais conflito foi na fotografia, pois eram dois editores, um no Rio de Janeiro e outro em São Paulo. O Rio realmente mandou em São Paulo. Um deles falou: “Por que eu era o editor de fotografia”. Eu disse: “Era um, o do Rio de Janeiro, tinha outro em São Paulo”. Ele novamente: “Eu era o editor”. Eu falei: “Não, olha aqui o expediente, era um no RJ e outro em SP”. Ele afirmou então: “E, até podia ser assim, mas eu mandava”. Então, se ele estivesse dando uma entrevista para uma pessoa “de fora”, ele estaria passando uma versão que não aconteceu. Ele foi obrigado a aceitar e assumir que ele tinha “engolido” o outro. Então, isso ajudou muito na apuração. Porém, quando comecei a discutir o trabalho com o Sérgio, cuja atuação como orientador foi fascinante, as perguntas que ele começou a fazer mostraram os buracos que havia no encadeamento lógico que eu tinha dado ao trabalho. Comecei a perceber contradições, a perceber problemas que eu não tinha pensado. A visão que eu trazia do jornal era insuficiente para contar a história. Isso foi muito legal. Talvez para um jornalista, o trabalho em alguns momentos pode ser menos atraente do que um relato ou uma grande reportagem sobre o Lance!. Mas eu acho que assim ficou muito mais denso e interessante. Isso deve valer também na Antropologia. A pesquisa etnográfica deve ser o ponto de partida, mas não pode ser o único para contar o que foi visto.

Por que podemos pensar o Lance! como uma singular experiência não só jornalística, mas também social dentro da imprensa brasileira e do universo esportivo como um todo? Ou seja, por que se trata de um ator fundamental no processo de “modernização” que vem marcando o futebol brasileiro nas últimas décadas?

Primeiro, porque ele se atribuiu esse papel. Para fazer um jornal é necessário um esforço de convencimento, para diferentes grupos sociais, de que esse jornal pode dar certo. Você tem que convencer primeiro quem vai investir nesse jornal de que é algo necessário, importante, por algum motivo. Tem que convencer um grande grupo de leitores de que é um projeto interessante. Convencer jornalistas de diferentes capacidades e qualificações a se engajar neste projeto. Então, desde o início, e isso tento mostrar no trabalho, o primeiro a pensar no jornal, Walter de Mattos, empreendeu um esforço de provar que era necessário, primeiro, um veículo novo que renovasse o jornalismo esportivo brasileiro, que estava engessado em velhas fórmulas e cujos principais veículos reproduziam um modelo antigo que supostamente estava atrasado (a saber, os concorrentes eram a Gazeta Esportiva e o Jornal dos Sports). Segundo, havia no mundo inteiro uma onda de renovação da exploração do esporte como negócio. Vivia-se um período de florescimento deste conceito do esporte como business, como nunca houve antes. Terceiro, havia e vivia-se uma discussão de reforma da legislação de imprensa no Brasil. Uma discussão antiga e que estava madura naquela ocasião (estamos falando de 1997), que era a possibilidade de empresas estrangeiras poderem investir em mídia no Brasil. Algo que foi sempre um tabu, não só aqui como em vários países, pois a mídia sempre foi considerada um setor estratégico, onde a participação de capital estrangeiro é questionada e considerada perigosa. Naquele momento discutia-se a possibilidade de permitir, pelo menos uma parte. No final, a Constituição foi alterada, permitindo até 33% de capital estrangeiro na mídia. É o que pode até hoje. Imbuído deste espírito de criar um jornal a partir destas três diretrizes, o Walter levou adiante um projeto novo e foi o protagonista desta inserção do Lance! na mídia.

O que explica a permanência, sucesso e longevidade do Lance!, um dos poucos jornais a serem lançados nos últimos 30 anos? Quais foram as principais ações de Walter de Mattos Jr, fundador do Lance!, para a consolidação do jornal?

É difícil apontar o que explica o sucesso. Uma coisa clara era de fato a decadência dos concorrentes. Você chega num mercado, com um jornal 100% em cores, uma linguagem jovem, fotos enormes, agradável, enfim, um produto novo, e tem ao lado dois produtos com uma cara velha, que não mudam há vinte anos, pelo mesmo preço. Isso foi um fator. Em menos de um ano, o Lance! já estava liderando o mercado. Ainda que no primeiro ano o Lance! tenha vendido menos da metade da meta estipulada e prevista. Foi um fracasso comercialmente. Mesmo assim, ele se tornou o líder de mercado. Isso só pelo fato dele existir. Neste ponto o Walter estava muito certo. Havia mercado para um produto novo. Mas não responde por que dez anos depois o jornal esteja entre os dez maiores jornais do país. O Lance! não sai do ranking dos dez jornais que mais vendem, competindo também com jornais não especializados. Isso é um sucesso.

Ao longo destes anos, se o público alvo inicial era a juventude, hoje ele consegue atingir outros públicos ou mantém uma lógica próxima à temática jovem?

Acho que ele mantém esse alvo, e como eu aponto no livro, ele atirou no que viu e acertou também no que não viu. Acho que ele mirou o público jovem de classe média por uma questão de mercado, ou seja, dentro da lógica do esporte como business ele queria um leitor que tem poder aquisitivo. Isso iria ajudar a girar negócios variados: anunciantes, vendas de produtos, internet (inclusive já nasceu com um site). Está sintonizado. Mas atraiu outros leitores. Acho que tem gente mais velha que lê; de classe social mais baixa que lê: o porteiro, motorista de ônibus, que não eram o foco principal do jornal.

Porém, nesse sentido, é curioso perceber que dois anos antes surgiu uma proposta parecida, a nova Placar, que não deu certo, embora procurasse atingir um público jovem.

Exatamente. A Placar até chamava “Futebol, sexo e rock ‘n roll”. Essa foi mais uma tentativa da Placar de decolar como um veículo de massa, o que ela não conseguiu. Mas talvez uma das respostas seja o fato de a Placar não ter conseguido, tal como o Lance!, alargar o público-alvo pretendido inicialmente. Aquela Placar afugentou um leitor antigo. O Lance! não afugentou outros públicos. No livro eu uso a seguinte imagem: o Lance! atraiu tanto o leitor “garotão de classe média” que vai na janela do prédio e grita “chupa Corinthians”, quanto o office-boy que está lá em baixo e pergunta “quem é esse cara que está gritando?”. Mas ainda não sei se isso é suficiente para explicar porque dez anos depois o jornal deu certo. Talvez seja por isso mesmo, porque tinha um nicho de mercado; as pessoas queriam um jornal leve, para cima, com notícias curtas, bem-humorado, na fronteira com a ficção, com o “Fala Doente”, aquele colunista inventado. E várias outras seções lúdicas.

A Gazeta Esportiva deixou de ser impressa em 2001. Você vê causalidade em relação ao Lance!?

Total. Não tenho a menor dúvida. E a última vez que vi uma estatística do Jornal dos Sports eles vendiam 5 ou 10 mil exemplares. Estes jornais não souberam reagir. Logo que o Lance! surgiu, a Gazeta Esportiva fez uma campanha cômica. Não era da minha época de São Paulo, mas teve um jogador do Corinthians chamado “Lance”. O pessoal mais velho lembra. Pegaram esse cara e fizeram uma campanha com ele assim: “Até o Lance lê A Gazeta Esportiva”. Essa foi a reação da Gazeta. Hoje trabalham com o site e a agência de notícias, Gazeta Press, que fornece serviços para vários veículos de mídia. Mas é outra dimensão, outra repercussão. Você não fala mais muito da Gazeta Esportiva.

Assim, podemos concluir que a década de 1990 foi um período-chave dentro do mercado jornalístico?

Sim, justamente pelo surgimento do Lance! em 1997, inserido neste contexto do futebol empresa, auge da ideologia neoliberal. Em outras áreas também. É um período de prosperidade geral. Depois houve uma ressaca. O Lance! passou por uma crise, quase fechou. Mas ele surge em um contexto de euforia. É um marco. Na linha do tempo da imprensa esportiva o Lance! é um elemento importante. Em outras palavras, não dá para contar uma história do jornalismo esportivo sem falar do Lance!.

Quais foram as principais contribuições da mídia esportiva para a construção do imaginário futebolístico no Brasil desde o início do século XX?

Eu acho, na verdade, que a mídia está sempre a reboque da sociedade. Acho que a mídia é um reflexo dos fenômenos sociais. Não acho que a mídia cria. Este esboço de história que faço do jornalismo esportivo mostra como a mídia está refletindo “a revolução do esporte”. Quando o futebol é um esporte de elite, as discussões que a mídia trata dizem respeito a isso, aos conflitos que surgem por ser um esporte de elite, mas que também interessa a outras classes sociais. Não é a mídia que levanta a questão da profissionalização, mas, sim, esta é uma discussão que se impõe e obriga a mídia a discutir isso abertamente ou mesmo a tomar partido a favor ou contra, visto que ela se divide, com o Estadão, ao lado do amadorismo, enquanto que outros jornais mais novos e modernos apoiavam o profissionalismo. Não consigo imaginar que a mídia contribui de alguma maneira para essa construção. Ela é ativa, está sempre discutindo e tem posições diferentes sobre as questões principais que dizem respeito à história social do esporte, mas eu não a vejo, na área esportiva, em nenhum momento como protagonista de alguma mudança ou reforma. Ela reflete, de fato. E pode contribuir com suas reflexões. Mas é sempre a reboque de problemas reais criados por outros agentes, seja por dirigentes, público, atletas etc.

Ela mais dá voz, muito mais do que produzir isso?

Não me lembro de nenhum episódio que se possa afirmar: “Ah, isso aqui aconteceu por causa da imprensa”. O Thomas Mazzoni, em certo momento, culpou a imprensa por acirrar rivalidades, estimulando violência dentro e fora de campo. Mas foi algo episódico. Todos estes pontos que citei e outros, como o conflito entre a elite e classes populares, depois a questão da profissionalização, a questão do papel do Estado no primeiro governo do Getúlio Vargas, o tema da violência nos estádios, a discussão “futebol-arte e futebol-força”, rebeldia versus conformismo etc., podem ser lidos pela imprensa. Se você ler a imprensa ao longo da história do futebol no Brasil, desde o final do século XIX até hoje, conseguirá escrever uma história clara do esporte só lendo os jornais. Todas estas grandes questões estão lá e certamente ajudaram a formar a mente das pessoas. De forma bastante rica. Mas não acho que teve o mesmo protagonismo de outros atores. Talvez seja uma visão pessimista minha. Mesmo quando envolve as reportagens investigativas de qualidade da Placar e Folha de S.Paulo, sobre abusos financeiros, esquemas de corrupção etc. No saldo, nada aconteceu.

Como compreender a posição atual do jornalismo esportivo dentro do campo maior do Jornalismo, tendo em vista sua “condição marginal” desde seu início e, ao mesmo tempo, seu potencial de lucro e retorno financeiro para as mídias?

Primeiro, queria registrar uma queixa – não sei aqui ou em outra parte da entrevista, pois tem a ver com isso (risos). Tem uma coisa estranha que tenho percebido desde que comecei minha pesquisa sobre jornalismo esportivo. Há uma certa dificuldade dos protagonistas do jornalismo esportivo em discutirem o próprio fazer. É de espantar. Não consigo atinar as razões. Posso estar pessoalizando demais, mas não fui quem disse que o meu trabalho levanta uma série de questões sobre o fazer jornalístico. Concordando ou não com elas, cabem discussões. E a grande maioria das discussões que ocorreram foi feita por jornalistas de outras áreas. Vocês não são jornalistas e estão propondo uma discussão séria. Já tive outros debates, ou mesmo resenhas do livro, e quase sempre quem discute o trabalho não é jornalista esportivo. Acho isso uma coisa estranha. Quando digo que o jornalismo esportivo tem um papel subalterno dentro do jornalismo, acho no fundo que também é culpa dos seus protagonistas, pois estão pouco preocupados em discutir publicamente sobre o assunto. Tenho certeza que existem várias pessoas que pensam sobre o seu trabalho, são jornalistas esportivos críticos de seu trabalho, mas que evitam discutir publicamente coisas referentes a ele. Sem discutir o próprio fazer, você não evolui – talvez individualmente, mas não socialmente. Não basta só criar um caldo de cultura em um jornal, revista ou canal de televisão, se não discutir publicamente suas premissas, seus alicerces, suas idéias. Acredito, portanto, que o jornalista esportivo é um pouco culpado por seu não protagonismo dentro da imprensa. Ele tem hoje, como você disso, um peso na economia do jornalismo muito relevante – vide o investimento que a Rede Globo faz em transmissões esportivas e como todos os jornais têm cadernos de esporte. O Brasil está entre os três países que mais envia jornalistas para cobrir a Copa do Mundo. Acho até que é o principal. Então, a imprensa esportiva é uma coisa essencial na vida de um país.

Escutam-se muitas reclamações de que os jogadores falam sempre a mesma coisa. Mas talvez eles falem a mesma coisa porque as perguntas são sempre as mesmas. Como você vê isso?

São dois problemas. Primeiro, o cotidiano do esporte é uma rotina assustadora. A rotina de um clube é algo tenebroso. É sempre igual. O jornalista que acompanha isso tem de um lado a pressão do chefe para contar tudo o que exatamente aconteceu nessa rotina. A concorrência é gigantesca: jornais, sites, rádios, revistas, emissoras de televisão etc. Existe a pressão de todo mundo para que você reproduza exatamente a rotina do que aconteceu ali. Ao reproduzir, vai ser igual. Esse é um problema dentro do próprio jornalismo de fato. O repórter vai ser cobrado para trazer aquilo e quando ele traz perceberá que é igual ao de todos os outros, inclusive igual ao que ele mesmo fez nas semanas anteriores. Por outro lado, acho que tem muito pouco estímulo a uma cobertura criativa. E para isso é preciso investimento. Se um tem que trazer a fala do Mano Menezes sobre o jogo, talvez precise que outro jornalista vá com ele para prestar atenção em outras coisas que os demais não estão olhando. Ou o próprio repórter ter mais tempo para, além da fala do Mano Menezes, apurar outras histórias não tão óbvias. Acho que é uma decisão de apostar. Exige tempo, recursos, paciência, que não se tem. Assim, o repórter faz só a rotina, não tem curiosidade de pensar outras coisas, pergunta o óbvio e passa sempre essa sensação de tédio, afinal, se a pergunta é sempre igual a reposta também será.

O que pode ser destacado a partir de uma comparação entre a imprensa esportiva brasileira e a de outros países? O que diferencia o nosso debate? Ou existem muito mais coisas em comum?

Conheço melhor a italiana, pois morei na Itália. Por um lado, tem problemas muito parecidos: repetição de assuntos, cobertura com excesso de paixão e pouca racionalidade. Tinha uma sensação, quando estive lá na década de 1990, de que a cobertura na televisão era uma coisa muito menos popularesca que aqui, com jornalistas mais sérios. Mas não arriscaria dizer que é assim mesmo hoje. No geral, não achei muito diferente. Em competições internacionais – e em Olimpíadas isso é visível –, os jornalistas estão preocupados com eventos relacionados às suas nações. Você vê de um lado, jornalistas gregos correndo em uma mesma direção, pois um atleta grego está disputando o terceiro lugar do judô; aí passa na sua outra direção cinquenta australianos correndo para a final de uma prova da natação. Então, a cobertura destes eventos internacionais é praticamente o olhar de uma nação sobre sua própria nação. Raramente você consegue ter uma visão global de um evento internacional. Em cada país a exigência dos editores e dos leitores é saber só o que está acontecendo com a sua nação. É peculiar isso. Num caderno de esportes de 24 páginas da Folha de S.Paulo, do Estadão durante a Copa, são 4 páginas para os demais países e 20 para o Brasil. E assim também é nos EUA, na França etc. Não existe em nenhum país uma cobertura que seja globalizada, equilibrada, é sempre uma cobertura nacional. O que pode variar é o grau de isenção e parcialidade.

Quais serão os desafios, para os próximos anos, das políticas editoriais das diferentes mídias para lidar com a principal paixão – o futebol – de um país onde o setor de comunicações caracteriza-se por monopólios políticos e familiares?

Uma questão central é a transição inexorável para a mídia eletrônica, incluindo a internet, e uma perda de importância de mídias impressas. É um processo sem volta. O que será do jornal daqui vinte anos eu não sei. Mas tenho certeza que será menor e menos importante do que é hoje. Menos importante enquanto formador de opinião; enquanto orientador de decisões etc. Acho que vai continuar existindo, mas vai ser outra coisa. Dentro da sua pergunta, podemos pensar em como vai ser essa transição para a internet e de que forma a internet será capaz de suprir as necessidades numa sociedade democrática de informação de qualidade, acesso a todos, sem viés etc.

E ela vai superar uma certa concentração das forças midiáticas?

Essa é outra questão, ainda mais difícil de analisar. Não sou especialista nisso, mas um pouco como observador leigo, preocupa ver que ela aparenta reproduzir um modelo que já existe em outras mídias. Mas tem uma novidade no meio, embora eu não seja um entusiasta como outros. Percebo que há uma originalidade nessa tecnologia, que cria uma dispersão em relação às fontes de informação, de fato. O site de vocês, por exemplo. Vocês não estão vinculados a nenhuma organização. São vocês que estão gerando informação. Não são jornalistas, mas estão gerando informação que é para ser consumida paralelamente a outros veículos de informação. E igual a vocês existem milhares. A capacidade de um site de se tornar um agente no jogo da informação é que eu ainda não sei avaliar. Alguns acham que é a solução contra o oligopólio. De qualquer pessoa, por meio desta tecnologia, poder ser um fornecedor de informação. Isso cria uma coisa nova, mas não arrisco dizer que é uma solução e desmonta os grandes conglomerados. Aonde vai chegar ou como vai ajudar na democratização da informação, eu não sei dizer. Há vinte anos, quando fizessem essa entrevista, como vocês fariam para ela ser ouvida? Onde ela seria ouvida? Fariam um mimeógrafo, distribuiriam na faculdade, venderiam na rua etc. Hoje a chance de ser lido é bem maior.

Qual é o seu projeto atual? A pesquisa de doutorado também aborda o universo esportivo e, mais precisamente, futebolístico?

O meu doutorado é sobre colunismo social. Mas eu tenho planos de fazer outro trabalho, após o doutorado, sobre jornalismo esportivo. Eu defendi a minha dissertação em 2006 e desde então continuei lendo, consumindo, pensando e escrevendo muito sobre esse assunto. De alguma maneira, permite melhorar coisas que eu pensei aperfeiçoar, enriquecer. Já dei palestras que o ponto de partida foi essa reflexão, mas que no final foram além. Então, tenho planos de escrever um novo livro sobre esse assunto. Percebo que é um tema que interessa, com pessoas interessadas em conhecer.

Encerrada a Copa de 2010, o que é possível apreender da primeira Copa no continente africano; da primeira vitória de um país europeu fora da Europa; da crítica às vuvuzelas; do protagonismo da bola Jabulani; do quase irônico sucesso dos holandeses em sua antiga colônia? Ou seja, foi uma Copa muito diferente das outras? O que você poderia realçar, o que te interessou, para além do que foi destacado pela imprensa?

Poderia escrever um livro em resposta a esta pergunta, tantas são as questões que vocês levantam aqui. Eu destacaria dois pontos. Em primeiro lugar, o protagonismo da Fifa, que, tudo indica, vai se repetir em 2014. A Copa na África do Sul foi uma operação de guerra, ao longo da qual um país se submeteu, aparentemente de forma gentil, às determinações de uma entidade privada. É impressionante observar o investimento feito na África do Sul para a Copa – em estádios, aeroportos, estradas, comunicação, segurança e hospedagem. Qual será o legado disso tudo? E o custo a ser pago pelas próximas gerações? Foi uma Copa extremamente bem organizada, mas e daí? Para a autoestima dos sul-africanos, foi ótimo, mas isso tem muito mais a ver com a história de miséria e opressão do que com qualquer outra coisa. O presidente da Fifa proibiu o presidente da França de promover uma investigação na Federação Francesa de Futebol. E fez o mesmo na Nigéria. Um jornalista sul-africano escreveu um artigo satírico, intitulado “Nomeie Sepp Blatter presidente da África do Sul e salve o mundo” que, na minha opinião, diz muito sobre esta situação. O segundo ponto que me chamou a atenção diz respeito ao futebol. Com exceção da Alemanha e do Uruguai e, em alguns momentos, dos Estados Unidos e da Holanda, o que se viu na África do Sul foram seleções jogando de forma cautelosa, para não dizer medrosa, com nove ou dez jogadores no campo defensivo, esperando um erro do adversário para o contra-ataque. A maioria das partidas teve pouca emoção e muito “estudo” de parte a parte. A que se deve esta mentalidade dominante hoje no futebol? Acho que esta é uma questão que merece uma reflexão mais aprofundada, mas eu antecipo um tópico. Tenho a impressão que, quanto mais o futebol se transforma num negócio bilionário, pior o jogo fica.

Para encerrar, um dos temas mais polêmicos no Brasil durante a Copa foi a relação conflituosa entre o técnico Dunga e profissionais da mídia brasileira. Algo amplamente divulgado e creditado não só a todo o período de preparação da seleção nos anos anteriores à Copa, como também a questões esportivas anteriores (como as críticas ao então jogador no que foi chamado de Era Dunga) e questões ligadas a outras dimensões nacionais, como o debate sobre o monopólio midiático e a concentração de interesses por uma empresa, no caso as Organizações Globo. Como podemos compreender todo esse processo relacional articulado nesta questão?

Creio que Dunga acertou ao acabar, de fato, com os privilégios que a Globo costuma ter nas coberturas jornalísticas da seleção brasileira. Esses privilégios sempre foram entendidos como naturais em função dos investimentos da emissora na compra dos direitos de transmissão dos grandes eventos esportivos, quando, na verdade, são coisas diferentes – uma é o negócio, outra é o jornalismo. Creio que a Globo acabou dando um tiro no próprio pé ao afrontar o técnico publicamente, como fez no Fantástico, em um “editorial” lido pelo apresentador Tadeu Schmidt. Dunga foi inábil, porém. Em vez de democratizar o acesso, optou por “democratizar” a falta de acesso da imprensa à seleção e transformar a mídia, como um todo, num inimigo. Essa foi uma das marcas do que chamei de “dunguismo”, a estranha filosofia imposta pelo treinador durante sua gestão à frente da seleção. Dunga não levou em conta, acho, que seleção brasileira é um negócio muito sério no Brasil, mais que em outros países e que os clubes europeus não servem como parâmetro neste caso. O número de jornalistas brasileiros credenciados pela Fifa para a Copa foi superior ao de qualquer outra nacionalidade – fora as dezenas de jornalistas que foram à África do Sul sem credencial, como as equipes das redes Record e SBT, por exemplo.


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