Código: 390

NEM UMA LÁGRIMA

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Referência: 978-85-7751-07


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160 páginas

POR UMA CRÍTICA DIALÉTICA

O crime de lesa-humanidade do capitalismo não é ter criado uma sociedade materialista em que se desejam bens de consumo, mas tê-la organizado de modo a impedir que a maioria tenha acesso aos bens que produz. Nós somos pela saciedade e contra a fome em todos os âmbitos, inclusive o da cultura.

Uma sociedade com plena consciência de si não precisaria ter ideologia, necessária entretanto em sociedades como a nossa, que contradiz o conceito de humanidade. No atual estágio, de acelerado descrédito do neoliberalismo (a última versão da ideologia), que não sairá de cena de bom grado, a função da cultura e da crítica prestigiadas pelo mercado e seu porta-voz, a imprensa, é investir toda a energia no cultivo das aparências e na ofuscação da consciência.

Por outro lado, por mais que se empenhem os interessados na preservação do estado de coisas, estes não têm como impedir por muito mais tempo a manifestação da cultura, da arte e da crítica dialéticas, que já estão por todo o lado e empenhadas, com igual ou maior energia, em forçar a sociedade a confrontar seu próprio conceito. Por isso combatem, às vezes com legítima fúria, obras e opiniões críticas que continuam afirmando falsidades como harmonia, liberdade de espírito, vida, indivíduo e seu cortejo de ilusões conexas. A crítica dialética tem o compromisso de levar a não verdade à consciência de si onde quer que ela se manifeste.

A profissão de crítico, desde a origem, tem um elemento de usurpaçacão, fundado na divisão do trabalho. Esse profissional, na essência, não é diferente do que fornece dicas ao mercado. Apenas atua no mercado dos produtos espirituais: como perito na especulação com as artes plásticas ou como juiz no mercado do entretenimento. A ilusão e a autoilusão de competência são intrínsecas ao exercício da profissão. A petulância com que costuma ser exercido na imprensa decorre da amena consciência de que o êxito do crítico, assim como o das obras, é um diploma conferido pelo mercado. Mas convenções bem-sucedidas são por sua própria natureza ultrapassadas, e então soa a hora em que o crítico não entende mais o que julga. É quando ele prazerosamente se deixa rebaixar aos papéis de propagandista daquilo que permanece aferrado às convenções, e de censor de tudo o que foge a elas, ainda mais feroz se a obra expuser alguma não verdade. Consuma-se então a antiga falta de caráter de um ofício que participa do amplo trabalho de tecer o véu das aparências.

A crítica dialética empenha-se em confrontar metodicamente todas as manifestações da propaganda e da censura, em expressa aliança com a arte também dialética.

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