Código: 672

Peixe Insolúvel

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Referência: 9798577510863


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MERCADORIAS EM EXCESSO

Este Peixe insolúvel /mundo em excesso\ de José Rodrigo Rodriguez deveria dar muito o que falar no panorama da atual poesia brasileira. A retomada da metáfora bretoniana/surrealista do título, porque revirada pela ironia, não indica filiação mas reversão de todo o livro para escavação do sentido do excessivo dos simulacros. Se é que seja possível, senão com ironia funda e recorrente, captar sentido nisso. Mas a contramercantilização, mesmo assim, já é um sentido forte...

É que o movimento de todo o material do livro não é a busca do antipoético, ou do não poético, senão a ruptura até os ossos mesmo com essa linhagem literária, supostamente desmascaradora, mas já assimilada pela tradição e inclusive pelo conformismo.

Trata-se de desmanchar o excesso de dois postulados básicos da cultura capitalista contemporânea (mesmo a da periferia!), ou seja, as duas místicas que nos garroteiam: a da eficácia da suposta produção infinita de mercadorias e a do capital como autoprodutor e autorreprodutor.

Então não basta indicar e repetir por vãs metáforas, que são também mercadorias, que as coisas disponíveis são excessivas e alienantes, porque disso muitos já sabemos e a tradição da crítica literária também. Antes é imprescindível desocultar a lógica que preside e determina o excesso, como fantasma fraudulento da produção patológica de mercadorias das quais não necessitamos. Então os ´poemas´, melhor: os escritos deste livro desafiador põem em cena o desvio perverso da criação de ´necessidades´ e assim revelar que o excesso existe para satisfazê-las. A história do capital está aí para isso e só com a força da ironia pesada se pode combatê-la.

Ocorre que a literatura, a poesia, as artes, os livros, todos estão enredados nessa teia maligna do excesso, que a eficácia do mercado e o capital autorreprodutor impõem fazendo proliferar simulacros sobre simulacros (para os quais, aliás, vida e morte são a mesma coisa) numa gestação infinita e brutal. Onde haveria estômagos para tanto?

Assim, a inumerável variedade temática e formal registrada pela poesia, pela literatura ou as artes em geral – as da alta cultura como as dos mídia – agora parece não mais estar relacionada com a criatividade humana – em si mesma, talvez, um bem inesgotável – mas foi capturada pelo moderno capitalismo para a produção de mercadorias e, mais recentemente, em vias de preencher não apenas milhões ou bilhões de folhas de papel, mas também as virtualidades das novas tecnologias eletrônicas.

Haveria, pois, um cansaço extremo nesse excesso, que é o impasse nada poético que percorre este Peixe insolúvel. Talvez os mares da nossa desumanização crescente estejam a apodrecer... É ler e enfrentar este livro provocador para, eventualmente, saber.

Valentim Facioli

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