Lott e Prestes - o marechal e o comunista - Pré-Venda - Faltando para a Meta 72 livros
Simulador de Frete
- Calcular freteAproveite e compre junto
Essa é uma história fundamental, que todos deviam conhecer.
Rio de Janeiro, setembro de 1959: Luiz Carlos Prestes, maior liderança do Partido Comunista do Brasil (PCB), lança o documento Os comunistas e a sucessão presidencial em que defendia o apoio eleitoral ao marechal Henrique Lott, então ministro da Guerra de Juscelino Kubitschek.
Vencedor da disputa presidencial de 1955, Juscelino Kubitschek somente pôde tomar posse depois da ação decisiva de Lott, que debelou a ação golpista dos entreguistas e do imperialismo. Durante todo o seu governo, JK conviveu com o risco de novas tentativas de golpe, sendo que duas delas chegaram a ser iniciadas em 1956 e 1959, ambas novamente sustadas por Lott.
Já em meados de 1959, as disputas e articulações políticas para eleição presidencial de 1960 estavam a todo vapor. Lott não pensava em candidatar-se, nem a sua candidatura havia sido formalizada por algum partido, não obstante, já era considerado um dos mais fortes candidatos a suceder a Juscelino Kubitschek, na Presidência da República. Conservador, sério, austero e anticomunista, Lott não era o candidato dos sonhos de Prestes, nem dos comunistas, porém, o marechal era nacionalista, democrático e legalista, o que o diferenciava substancialmente das alternativas eleitorais.
Fazendo oposição a Juscelino Kubitschek, destacava-se a figura de Jânio Quadros, governador de São Paulo, que possuía um perfil histriônico, moralista, oportunista e demagógico. Compartilhando as mesmas características de Jânio Quadros, Adhemar de Barros também se sobressaía como um dos principais candidatos de oposição a JK, naquele momento em que se desenhavam as candidaturas presidenciais para 1960.
Ambos os políticos paulistas eram duramente rechaçados e condenados por Prestes e pelo PCB, identificados como os principais representantes do imperialismo estadunidense e dos setores atrasados da burguesia nacional. Apesar de fazerem constantes acenos ao povo, Jânio Quadros e Adhemar de Barros eram políticos liberais demagógicos a serviço do entreguismo, o que inviabilizava qualquer aproximação dos comunistas.
Por outro lado, Lott era reconhecido nacionalista, defensor das riquezas e do desenvolvimento nacionais de forma soberana e independente. A despeito do anticomunismo do marechal, a potencial candidatura Lott oferecia a possibilidade de manutenção da democracia no Brasil, o que favorecia a garantia de alguns direitos e a ação política dos trabalhadores organizados.
Revendo sua linha política do início dos anos 1950, marcada por um isolamento da sociedade brasileira, PCB reorganizou suas táticas e estratégia partidárias, procurando estabelecer articulações políticas com os setores nacionalistas e trabalhistas progressistas na segunda metade da mesma década, especialmente após o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, realizado em fevereiro de 1956.
Em março de 1960, Prestes lançou novo documento, intitulado Pela vitória da causa nacionalista e democrática nas eleições presidenciais, em que reforçava a defesa do apoio dos comunistas à candidatura de Lott pelo Partido Social Democrático (PSD), a mesma sigla de Juscelino Kubitschek, confirmada no início daquele mesmo ano.
Salientando o imperialismo estadunidense, o golpismo e o entreguismo dos setores reacionários da burguesia nacional e das classes médias, Prestes defendeu que os comunistas fizessem campanha aberta pela eleição do marechal e de João Goulart, seu vice-presidente na chapa de 1960.
Desde o suicídio de Getúlio Vargas em agosto de 1954, o imperialismo estadunidense e o entreguismo nacional mostravam-se abertamente com muita intensidade, o que exigia cautela e prudência dos comunistas, argumentava Prestes. Apesar de seu conservadorismo e seu anticomunismo, Lott era fundamental para frear o golpismo antinacional e permitir que as forças de esquerda pudessem avançar no terreno político.
Devido às suas ações e posições, Lott foi reconhecido como o grande nome do nacionalismo brasileiro naquela segunda metade da década de 1950, o que lhe conferiu condições políticas para ser escolhido candidato à Presidência da República pelo PSD. Em torno do militar, surgiu um movimento cívico-militar, chamado Frente de Novembro, que propôs um programa de profundas transformações econômicas, políticas e sociais do Brasil, fazendo lembrar a Aliança Nacional Libertadora (ANL) dos anos 1930, que tinha em Prestes sua principal referência e liderança.
Sem poder exercer o mesmo papel em 1960, já bastante perseguido e proscrito, Prestes tentou fazer avançar o projeto comunista por meio do nacional-desenvolvimentismo de Lott. A posição tática de Prestes foi aprovada pelo PCB, que fez forte campanha por Lott em 1960, e por boa parte dos comunistas, contudo, não por todos.
Nas esquerdas, em geral, e no campo comunista, em particular, houve quem não apoiasse a candidatura do marechal, como foi o caso dos trotskistas. Hermínio Sacchetta, um dos principais intelectuais trotskistas, não apenas se negou a endossar a candidatura do ministro da Guerra de JK, como a rechaçou com a mesma veemência com que rejeitou a candidatura de Jânio Quadros, em seu artigo Nem Lott, nem Jânio: Por uma política de classe, publicado em julho de 1959, antecipando-se ao documento de Prestes, que já defendia internamente a candidatura do militar desde o começo desse mesmo ano.
De acordo com Sacchetta, Lott e Jânio Quadros eram ambos candidatos burgueses, representando tão somente frações diferentes da burguesia brasileira. Enquanto Jânio Quadros advogava pelos setores agrários e reacionários, Lott era o candidato do setor industrial brasileiro. Diferentes nos interesses das frações de classe da burguesia brasileira, Lott e Jânio Quadros, segundo Sacchetta, acabavam se aproximando na sustentação da própria política da burguesia, como classe. Por esse motivo, Sacchetta criticou duramente Prestes, argumentando que a defesa de uma candidatura burguesa enfraqueceria a organização dos trabalhadores e de suas vanguardas no médio, longo prazo, minando a autonomia da classe operária e descaracterizando seu programa revolucionário.
Esse livro, Lott e Prestes - o marechal e o comunista, traz esse intenso debate e essa acirrada disputa político, ideológica, partidária e eleitoral naqueles anos de 1959 e 1960, que fazem tanto eco nos dias de hoje, especialmente na eleição presidencial de 2026. Suscitada pelos documentos de Prestes, a obra está dividida em três partes.
A primeira parte traz e discute o Manifesto à Nação, publicado pela Frente de Novembro em 7 de junho de 1956. A segunda parte apresenta e estuda os documentos de Prestes, que, quando agrupados em uma mesma publicação em 1960, foram intitulados Por que os comunistas apoiam Lott e Jango? E a última parte que expõe o e reflete sobre o artigo de Hermínio Sacchetta, Nem Lott, nem Jânio: Por uma política de classe.
Sobre os autores:
Felipe Lott é bisneto do marechal Lott e doutor em História Contemporânea pelo Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal Fluminense (PPGH-UFF, 2024), mestre em História Contemporânea pelo PPGH-UFF (2019) e bacharel em Ciências Sociais pela UFF (2016). Atua na área de história política nos seguintes temas: nacionalismo no século XX, democracia no Brasil (1945-1964), história militar no Brasil republicano, Ditadura Civil-Militar, partidos políticos da Quarta República (1945-1964), partidos políticos da Ditadura Civil-Militar, política no Estado da Guanabara, ação política das mulheres no Brasil republicano, gênero e história das mulheres no Brasil republicano.
Guilherme Diniz é professor de História do Brasil, formado em Ciências Jurídicas e Sociais, pesquisador da formação política nacional e estudioso do Brasil republicano, com ênfase no pensamento nacionalista brasileiro, nas relações entre Estado, soberania e Questão Nacional. Sua atuação concentra-se na interpretação dos grandes dilemas brasileiros: a construção do Estado nacional, a presença das massas populares na vida política, o papel das instituições e os conflitos entre projetos nacionais e formas subordinadas de inserção internacional.











