O pelo da palavra e outros crimes, de Renato Franco
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O pelo da palavra e outros crimes, de Renato Franco
Como narrar uma história por meio da poesia?
Essa é uma questão antiga, tão antiga quanto a antiguidade, mas que foi duramente colocada em xeque pela ascensão do romance nos últimos três séculos.
A poesia perdeu, diante da vitória desta forma específica de prosa, parte de seu espaço e de seu lugar. Quando a literatura quer mergulhar no real ou pretende criar o efeito de real, a expectativa do leitor contemporâneo é encontrar a prosa, não a poesia.
Depois dos modernismos de século 20, a fragmentação vicejou, colocando ainda mais de canto as opções narrativas em verso de fatos e acontecimentos. Não que elas tenham desaparecido, mas, longe de serem a forma dominante, a exposição dos acontecimentos como que ficou a reboque de experimentações formais e expressões do indivíduo na maior parte dos livros de poesia.
Alguns poetas, como João Cabral de Melo Neto, encontrarão no texto teatral versificado a alternativa para se fazerem ler, seja reconstituindo uma biografia como a de Frei Caneca, seja contando as dores do sertanejo diante da seca.
Assim, depararmo-nos com poemas que se constroem a partir da história e do real, do coletivo ou de uma nação, somos desafiados enquanto temerosos leitores contemporâneos de poesia. O que esperamos encontrar? Os fatos não matarão os versos? Temos um projeto ético ou estético?
Questionamentos que, não raro, acabam por justificar uma fuga crítica, que exprime mais um sinal de covardia do que de dúvida justa. O pelo da palavra e outros crimes, de Renato Franco, enfrenta, com sucesso, tal risco.
Haroldo Ceravolo Sereza
Sobre o autor: Renato Franco é professor livre-docente aposentado da FCL-Unesp Araraquara. É autor ou organizador de oito livros, dentre os quais se destacam Itinerário político do romance pós-64: A festa (Unesp), 10 lições sobre Walter Benjamin (Vozes) e Estado de exceção na Argentina e no Brasil: uma perspectiva a partir da Teoria Crítica (Nankin), este em parceria com Miguel Vedda e Antonio S Zuim.

















